Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Opaco

Opaco: adj. Aquilo que nos protege do que nos magoa — e também, claro, aquilo que nos protege do que nos deixa felizes. Agora pensa: vale a pena abdicar dos dois só porque tens medo de um?
29 de janeiro de 2018 às 07:00
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Opaco

Prometo amar,

a mãe com o bebé no colo no meio da sala desarrumada,

o amor desarruma,

e é ele que coloca tudo no sítio, ainda assim,

só ele, na verdade,

uma casa sempre arrumada é uma casa morta,

a vida desarruma,

a mãe promete, e cumpre,

prometo amar,

o bebé sorri primeiro,

quantas vidas vale o sorriso de uma vida a começar?,

a morte custa porque nos mata o sorriso, antes de mais nada,

de repente chega a fome e o bebé chora,

a fome faz chorar, a falta faz chorar,

mas o amor aguenta, o amor suporta,

se há algo que o amor faz é aguentar, suportar,

e nem custa nada,

quando se ama, o que se suporta é também o que se ama, o que se aguenta é também o que se ama,

ama-se para que a vida continue,

prometo amar,

a mãe ao ouvido do bebé,

já sabe que há fome e já sabe como a resolver,

as mães sabem quase sempre como se resolve a dor de um filho,

e quando não sabem inventam e assim acabam mesmo por saber,

já despiu uma parte da parte de cima da sua roupa e vai começar a tapar a fome do bebé com aquilo que lhe tapa a fome,

há alturas na nossa vida em que a única coisa que nos tapa a fome é alguém ter a coragem de vir de pele e alma até nós,

prometo amar,

continua a mãe,

o bebé já não chora, a fome está a desaparecer enquanto a sua boca procura a pele da mãe que lhe dá de comer,

somos viciados na pele de quem amamos, nem que seja só de a ver,

somos viciados na pele de quem amamos,

e há lá vício mais saudável do que esse?,

prometo amar,

nem que doa, e às vezes dói tanto, nem que custe, e às vezes custa tanto, nem que amar nos tire do sério,

que assim seja, por favor, há lá algum interesse no que não nos tira de nós e nos leva para o meio de nós?,

mas o que custa mais é não amar,

acabar é parar de amar,

só isso,

nunca ninguém sofre por amor, só por falta dele,

a mãe promete amar, e ama,

o bebé quase satisfeito no peito dela,

haja um colo para nos salvar e nunca precisaremos de qualquer tipo de salvação,

do nada ouve-se um barulho que não se explica, um estrondo que não se explica,

um raio cai naquela casa onde o amor tinha caído para sempre,

um raio que atinge a mulher, a mãe,

e o filho continua a matar a fome,

sem saber que algo já lhe havia matado a mãe,

e as horas passam,

um bebé agarrado ao peito da mãe morta,

prometo amar,

e salvar,

um bebé vivo pela protecção da mãe,

horas depois a polícia, o fim de tudo,

o bebé a chorar porque já não tem a mãe,

porque a mama da mãe está morta,

a mãe inteira está morta,

mas o filho vive,

vai viver,

porque a mãe o salvou,

todas as mães servem para salvar os filhos,

todos os amores servem para salvar pessoas,

e um dia um filho vai escrever à mãe,

obrigado, mãe,

e um dia um filho vai querer dizer ao mundo que foi salvo pela mãe, que nem um raio conseguiu seguir perante o amor de uma mãe,

para que raios serve o amor se não for para nos salvar também de todos os raios que nos querem atingir?,

prometo amar,

disse a mãe antes de morrer com o filho no peito, antes de salvar com o peito a vida do filho,

prometo amar,

vai um dia dizer o filho,

é hoje o dia, minha mãe,

prometo amar,

porque nunca se sofre por amor, só por falta dele,

e eu sinto-te a falta, mãe,

prometo amar.

Opaco: adj. O contrário de transparente — que é o mesmo que dizer o contrário de ti; por mais nuvens que o céu tenha nunca o sol deixará de lá estar.

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