Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas dicionário do amor

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Pedro Chagas Freitas: Jugo

Jugo: s.m. Aquilo que te faz ocupares-te do que não te ocupa; nada do que se faz por fazer deve ser feito.
24 de abril de 2017 às 01:13
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Pedro Chagas Freitas: Jugo

(a vida é uma intenção)

São tão curtas todas as horas sempre que nos lembramos que não voltam a passar. Só uma velha como eu te dirá algo assim: é quando o prazo de validade chega que algo assim pode ser válido. Até lá, somos donos do tempo, das horas, há uma espécie de imortalidade e todos os danos são ultrapassáveis. Não acredito que estejamos aqui para nada mais do que isso: só para conhecermos, pouco a pouco, o valor do que vamos perdendo.

É essa a ironia suprema: compreender o que vamos ganhando à medida em que o vamos perdendo. O entendimento dá-nos espessura mas tira-nos desprendimento, e há uma alegria que sem desprendimento não é alegria nenhuma.

Quando era jovem acreditava que era o amor o melhor da vida, hoje tenho a certeza. Amamos para sermos imortais, para que algo de nós reste depois do corpo. Quem não ama morre cedo, por mais que nunca tenha, na verdade, vivido. Só quem ama pode amar a vida.

Aprende: só deves fazer aquilo que darás tudo para que seja bem feito. Por vezes parece que não vale a pena, que é só mais um dia, que é só mais um beijo, que é só mais um amigo.

Mas nada é só mais uma: és a soma de tudo aquilo que pode não valer a pena, e é isso, o produto final de tudo isso, que acaba por fazer valer a pena. Alguns dos melhores momentos que vivi não prestavam para nada, ninguém dava nada por eles. Conheci o teu avô em mais uma visita ao supermercado, por exemplo. Deixei cair um pacote de arroz, ele apanhou-me, com aquele sorriso que pensei que não existia (há sorrisos que não existem, não é?, sorrisos que chegam de partes do mundo que ninguém conhece), e dois dias depois começámos a morar juntos. Não há acontecimentos de segunda nem acontecimentos de primeira na tua vida.

Tudo o que fazes és tu, inteiramente tu. Desprezares algum momento do que vives é desprezares-te. Apaixona-te: eis a súmula de tudo o que te posso ensinar.

Apaixona-te antes de fazeres. E se não estiveres apaixonado não faças. Só se ama o que nos apaixona. O amor exige dedicação apaixonada, não dedicação sacrificada. Ninguém se sacrifica pelo amor, porque se é amor não é sacrifício nenhum.

O moderado será, no máximo, moderadamente feliz, o que é moderadamente uma merda.

Perdoa-me usar estas palavras, meu querido, o teu pai que me perdoe (ainda me lembra da primeira vez em que ele disse um palavrão, estávamos a ver o Sporting e aquilo saiu-lhe, danado, sempre foi louco por aquilo; eu e o teu avô olhámos um para o outro, quisemos dar-lhe um sermão, dizer-lhe que não podia dizer aquelas coisas, mas não aguentámos e tivemos de fugir a correr para a cozinha para rirmos que nem uns malucos; o amor faz-nos rir que nem malucos; amar é rir que nem malucos, eamar rir que nem malucos), mas a verdade é que é mesmo assim: somos viciados no moderado, no razoável; acreditamos que é de lá que sai algo que nos sustenha, que nos equilibre no meio deste desporto radical que é viver.

Que estupidez. O moderado nunca fez ninguém infeliz, e muito menos fez alguém feliz. Os moderados vivem muito mas nunca vivem, não sei se me entendes, espero que sim, que és um espertalhão, a tua professora de português ainda ontem mo disse à saída da escola.

Não me recordo de nenhum momento em que tenha sido moderada, não porque nunca o tenha sido, infelizmente fui-o muitas vezes, mas apenas porque nenhum momento moderado se torna inesquecível. O moderado perde-se em pouco tempo, é no máximo uma válvula para escapar ao que é loucamente desnecessário. É o desnecessário o que nos alimenta: um poema, uma dança à chuva, uma festa. Nada disso tem qualquer servência a não ser fazer-nos viver. Vivemos do que não é essencial, também, por mais que vás ouvir muitos a dizerem-te o contrário. Não acredites no que te dizem quando o que te dizem não te faz sentir. Nascemos para sentir, o que é o mesmo que dizer que nascemos para amar. Procura o que amas. Quer. Quer muito, quer sempre.

Querer é o motivo certo para fazer. No início está a intenção. Não a desprezes. De boas intenções está o inferno cheio, mas o céu também.

Jugo: s.m. Exploração perversa das tuas debilidades; o frágil não é o que teme – o frágil é o que deixa de querer só porque teme.

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