Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas Dicionário do amor

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Popular

Popular: adj. Aquilo de que a maioria das pessoas gosta; para seres popular não precisas de ser aquilo de que todos gostam — só precisas de que gostem daquilo que tu és. Quem faz tudo para ser popular nunca será popular; só fingido.
24 de abril de 2018 às 20:30
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Popular

A verdade, meu amor, é que é mentira.

É mentira a saudade que não sinto, a lágrima que não choro. É mentira o querer não ter-te onde nunca vais deixar de estar. É mentira. E essa é que é a verdade.

(Carlan era um homem banal. Mas fazia questão de não ser um homem vulgar. "As pessoas vulgares irritam-me", dizia muitas vezes. E depois cuspia, com toda a força, para o chão)

São os actos, é nos actos. Sei que não és o que fazes. Mas só te vejo o que fazes. Aprende, meu querido, aprende. É nos actos que estás o que és. És o que fazes. Mesmo que o que fazes não seja o que és.

(Carlan era um homem especial. Sabia-o quase sempre. Havia dias, porém, em que chegava a hesitar. E era nessas alturas que, religiosamente, se dirigia ao café da esquina. "É especial, não tenho dúvidas disso", dizia-lhe o empregado. E começava a preparar-lhe a francesinha do costume)

Não fui capaz, princesa. Não fui capaz. Domava o que pensava mas não conseguia domar o que fazia. E no fim, bem no fim, onde tudo termina, só ficava o que fazia. E só era o que fazia. E, agora que não te tenho, agora que tudo o que faço contigo é apenas o que penso, pressinto que desperdicei a oportunidade de ser o que era e ser o que pensava. Não fui capaz. Fui o que fiz. Mas esqueci-me de fazer o que quis fazer.

(Carlan era um homem sensível. "Não entendo como há pessoas que conseguem passar por imagens destas e seguir sem pestanejar", pensava, sempre que passava por um cão abandonado ou por uma pessoa sem abrigo. Era então que, de imediato, pestanejava. E seguia, de consciência tranquila, o seu caminho)

Aqui sinto o alívio de me saber tua. E é tão bom saber-te ausente. E é tão bom querer-te presente, querer abafar esta saudade. E não poder. Liberdade é a inibição de possibilidades. Liberdade, amor, é viver com uma só possibilidade. E aprender a apreciar essa possibilidade.

(Carlan era um homem sensual. Vestia, normalmente, calças bem justas e calçava saltos altos. "Homem sensual", ouvia, amiúde, quando caminhava pela rua. E sorria, satisfeito - sem se recordar do problema auditivo, que fazia com que não conseguisse descodificar perfeitamente grande parte do que ouvia, que lhe havia sido diagnosticado ainda criança)

Não sinto que estejas morta. Sinto que morri. E por vezes, quando acordo, hesito entre respirar e não respirar. E escolho, desde sempre, a terceira opção.

(Carlan era um homem morto. Planeara, meses a fio, a melhor forma de falecer. Decidira, após muita reflexão, electrocutar-se com toda a corrente da sua casa. Mas o rebentamento de uma central de grande potência obrigou, no dia em que estava previsto o falecimento, a um corte geral de electricidade na região. Carlan ficou impedido, assim, de falecer. E foi obrigado a permanecer morto)

Passamos pela vida, amor, a hesitar entre respirar e não respirar. E escolhemos sempre a terceira opção. Porque há dois caminhos para estar vivo. Mas é no terceiro que se encontra a vida.

Popular: adj. O mesmo que dependente de aplausos; quando experimentas a força de uma multidão contigo: ficas viciado numa multidão contigo. Há poucas drogas mais fortes do que a vaidade.

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