Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Quadrilha

A Rita baixou ainda mais a cabeça. Talvez estivesse a chorar, porque vi os seus ombros a estremecer como se um comboio tivesse passado por ela demasiado perto. Há homens que são como os comboios, fazem-nos estremecer quando passam, e se por acaso descarrilam, é o caos.
29 de dezembro de 2017 às 07:00
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Quadrilha

Quantas vezes podemos ouvir a mesma musica sem nos cansarmos? Esta é uma das perguntas que faço a mim mesma há muitos anos, desde que abracei o ofício da escrita a tempo inteiro. É um oficio solitário, reservado a maratonistas do coração, ou a quem tenha um sistema de refrigeração do mesmo. Escrever ou viver, digo isto tantas vezes, para o mundo e para mim.

Quem escreve vive num universo paralelo tão rico e verosímil que até o espírito mais lúcido e atento pode cair na ilusão da outra realidade. A outra realidade não é a vida como ela é, é a vida como um escultor a esculpe, um pintor a pinta ou um escritor a escreve. Às vezes penso que o Picasso devia ver mesmo as caras chapadas como os linguados, com os olhos do mesmo lado, que o Modigliani só conseguia ver mulheres esguias de olhos rasgados e que o Monet perdia as suas amadas nos prados que pintava. O escritor também pinta o mundo como quer`, ao sabor do seu desejo e da sua imaginação.

- Fazes muitos filmes nessa cabeça – dizia a adolescente que caminha ao lado da amiga, as duas a subir o Chiado com sacos de compras, no rescaldo pós- natalício. Talvez andassem a trocar presentes, desporto tão nacional como o futebol. Como é meu hábito, segui-as silenciosamente, qual ninja das letras, e dei-lhes nomes, Rita e Mafalda, enquanto esperava que o diálogo me desse matéria-prima. E deu.

- Não percebo porque voltou para a ex-namorada que o tinha deixado, parecia tão feliz por nso termos conhecido. – disse a Rita que caminhava com os pé direito ligeiramente para dentro e a cabeça baixa.

- Por isso mesmo – explicou a Mafalda – não sabes que eles gostam de ser maltratados?

- Lá vens tu com a mesma conversa! Os homens não são todos iguais, uns são parvos, outros não.

- Não sei se são ou não todos iguais, mas cada vez que te armas em fofinha com um gajo ele arma-se em palhaço contigo, portanto ou sou eu que sou muito cética, ou és tu quem tem sempre azar. E ninguém tem sempre azar, portanto…

A Rita baixou ainda mais a cabeça. Talvez estivesse a chorar, porque vi os seus ombros a estremecer como se um comboio tivesse passado por ela demasiado perto. Há homens que são como os comboios, fazem-nos estremecer quando passam, e se por acaso descarrilam, é o caos.

- Tu achas que são todos bons rapazes como o teu pai e os teu irmão, parece que não te educaram para o lixo do mundo. Se tivesses tido um pai como o meu que passava a vida a enganar a minha mãe, não eras tão totó, percebes?

Comecei a pensar que talvez me tivesse enganado na idade. Não imagino miúdas de 19 anos a ter este tipo de conversa. Observei-as mais de perto: botas boas, belíssimos casacos de marca, malas grifadas, quem sabe estagiárias de um escritório de advogados? Há vários no Chiado.

Pararam em frente a uma loja de lingerie cobiçaram um babydoll escarlate que flutuava num manequim envernizado e entraram na loja. Entrei atrás delas, queria saber mais sobre aquele rapaz que não tinha esquecido a ex-namorada. Conheço vários, a historia repete-se tal como aquela música de que tanto gostamos e não é por isso que nos cansamos, nem da musica nem das histórias.

A minha espionagem emocional só iria servir para confirmar um padrão, mas desde que vivo sozinha sinto que tenho tempo para tudo e também não me ocorreu nada mais interessante para fazer naquele momento.

- E o pior é que agora vais demorar semanas ou meses a esquecer esse tipo que nem sequer tinha nada de especial. És uma pinga-amor em promoção, um caso perdido. A propósito de promoção, levo este ou este? – perguntou a Mafalda com dois soutiens na mão, um roxo e outro coral.

Estive quase para lhe dizer que o coral não favorece as loiras, mas contive-me. A Rita teria de esquecer um rapaz que não esquecera a sua ex. João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. Começa assim o poema Quadrilha de Drummond de Andrade. Não me lembro do fim do poema, só recordo que a única com final feliz foi a Lili que casou com um que não tinha entrado na história. Um tal de JPinto Fernandes, se não estou em erro.

Pedi o babydoll da montra à empregada e comprei sem experimentar. Talvez um dia lhe desse bom uso. O amor é sempre outra coisa. E a vida também.

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