Margarida Rebelo Pinto
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Quando for grande, quero ser como tu

Tive muita sorte com a minha irmã mais nova. Quando nasceu eu já tinha 10 anos, estava habituada a ser o centro das atenções, dona e senhora do meu território. Fui obrigada a atravessar a adolescência com aquela criança no quarto.
30 de agosto de 2019 às 19:26
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Quando for grande, quero ser como tu

A Francisca está sentada na areia num canto da esplanada, óculos de massa, chapéu de palha com um lenço de seda, talvez Hermès, quem sabe. O trikini é preto, a realçar as curvas perfeitas. Tem 29 anos, ainda não casou nem teve filhos, diz a a minha irmã Leonor que não tem paciência para crianças. É filha única e vai colecionando namorados, mas nenhum parece ser suficientemente bom para ela. Falta-lhes sempre qualquer coisa: dinheiro, altura, pedigree, estilo, boas maneiras, esse tipo de parvoíces.

A Francisca é amiga da Leonor que casou o Verão passado com o Paulo, um ótimo rapaz, engenheiro, que trabalha na empresa do pai. O Paulo não é nenhuma estampa nem tem um nome de família sonante, como não vai ao ginásio e gosta de beber lambretas com os amigos já deixou que se instalasse uma barriguinha, mas a Leonor adora-o tal como ele é e ele vive para agradar à sua princesinha da Disney, que é o que a minha irmã mais nova parece, com os seus longos cabelos cor de mel, os olhos da mesma cor, embora num tom mais claro, o corpo de sereia sem preocupação com dietas, deliciosamente redondo, a respirar descontração e bonomia por todos os poros.

Tive muita sorte com a minha irmã mais nova. Quando nasceu eu já tinha 10 anos, estava habituada a ser o centro das atenções, dona e senhora do meu território. Fui obrigada a atravessar a adolescência com aquela criança no quarto, que me obedecia em tudo, que cobiçava os meus vestidos sem nunca me estragar nenhum, que me perguntava por todos os namorados e que dizia sempre com um grande sorriso, mana, quando for grande, quero ser como tu.

Confesso que quando chegou a via ao colo da minha mãe na maternidade, me deu um ataque de ciúmes, toda a gente a dizer que ela era linda e eu so via um bebé amachucado com o cabelo espetado e os olhos cheios de ramelas. A partir daquele dia as atenções de todas as pessoas da família mudaram de direção para sempre e eu adaptei-me sem uma queixa. Não me arrependi.

A minha mana sempre foi uma criança adorável, quase nunca chorava e não me lembro de ter feito uma birra. Quando chegou à adolescência, em vez de querer pôr piercings e de sonhar com tatuagens e maus rapazes, começou a fazer voluntariado. Pediu aos meus pais um Vespa para se poder deslocar para os seus trabalhos de baby-sitter e explicadora de matemática. Aos 18 anos já tinha juntado metade do dinheiro para comprar um carro e os mais pais deram-lhe o resto. Teve a média mais alta do curso, onde conheceu o Paulo, o seu primeiro e único namorado e casaram no Verão passado. Parece que desde então nunca mais deixaram de estar em lua de mel.

Durante o copo d’água, a Francisca passou o tempo a procurar mais uma vítima entre os amigos do noivo e todos os nossos primos que são mais de 10, mas ninguém lhe deu atenção. Ia com um vestido cor de laranja demasiado curto, a minha mãe torceu o nariz, achou falta de classe e eu encolhi os ombros e disse, mais do mesmo, ela quer chamar a atenção de qualquer maneira. E agora estava ali na esplanada armada em senhora, de fato de banho e de chapéu de abas. Não sei porque aceitei ir ter com ela, preferia ter ido para um ligar mais sossegado com a minha querida irmã, que já está de quatro meses e que sonha ter um rapaz, porque assim o Paulo já tinha companhia para o futebol, diz ela com aquele sorriso espetacular de quem nasceu com o dom para a felicidade.

- Acho um disparate teres engravidado já – diz-lhe a outra, que só pensa em festas e em potenciais namorados e/ou otários que a levem a passear e lhe paguem os copos e os petiscos. A Leonor lança-lhe um daqueles sorrisos à Julia Roberts que emprestam luz ao sol e responde, com a melhor das intenções:

- Deixa lá, querida, é melhor assim porque sempre quis ter três filhos e com 27 anos tenho tempo para me dedicar a cada um e esperar até ter o próximo. Se encontrares um tipo tão espetacular como o Paulo, se calhar também te apetece o mesmo.

Vi a outra a morder a boca. Talvez de raiva, talvez de desdém, talvez de inveja. Fiquei orgulhosa da minha querida irmã que me ensinou o que é pureza, a candura, a generosidade e a algria das coisas simples. Há miúdas com melhor coração do que outras. Tive sorte, saiu-me na rifa a melhor irmã do mundo. Se tivesse sido a Francisca, muita chapada teria levado naquele nariz arrebitado de perdigueiro que está sempre a cheirar a caça, mesmo fora de época. Lembro-me dela muito pequenina a ver-me a pôr o rimel e a dizer, mana, quando for grande quero ser como tu e agora eu é que quero ser como ela. Os filhos únicos perdem muito, coitados. Muito mais do que pensam.

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