Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Sem Rodinhas

Ter filhos é aprender a viver com o coração fora do peito para sempre.
02 de agosto de 2019 às 07:00
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Sem Rodinhas

Pensas que já sabes andar sem rodinhas no primeiro dia que te deixam na escola e levas cadernos e um estojo com canetas, lápis, afia e borracha, e te sentas numa mesa só para ti. Pensas que já sabes andar sem rodinhas a primeira vez que apanhas um transporte público sozinho, que atravessas a alfândega e te carimbam o passaporte, que visitas uma nova cidade. Ou quando acabas a universidade e te apresentas aos teus novos colegas no teu primeiro emprego.

Pensas que já sabes andar sem rodinhas a primeira vez que tens sexo, quando vais viver sozinho ou com alguém, quando o teu primeiro filho nasce, quando te separas, quando a tua avó mais querida e chegada morre, quando um dos teus amigos do secundário perde a vida numa curva à saída de uma autoestrada. Ou quando compras a tua primeira casa, quando consegues ter o carro dos teus sonhos, quando decides viajar sozinho durante três semanas pelo Sudoeste Asiático. A vida passa e vais cumprindo as etapas a que te propões a também aquelas que pensas que os outros esperam de ti.

Passas os 30, depois os 40, os miúdos crescem, já querem levar amigos de férias e já te pedem sair à noite, mas tu não percebes ainda o que vai acontecer a seguir, porque eles ouvem-te e obedecem-te, ainda és o Grande Herói Salvador, a mãe mais querida a inteligente e o pai mais forte e sábio, ainda tens o teu mundo nas tuas mãos.

Podem chatear-te no trabalho, podes perder as partidas de ténis, podes levar socos do teu treinador de boxe, podes senti-te menos forte, menos feliz, o cabelo a branquear a e a pele a ganhar sinais da idade, mas acredita, ainda andas de rodinhas, mesmo que penses que não.

A vida tira-te a rodinhas e obriga-te a andar sozinho quando o teu pai padece de uma doença crónica sem cura, quando percebes que a tua mãe está a perder a memória, quando os teus filhos crescem e saem de casa. De repente o ninho fica vazio, o silêncio começa a invadir todas as divisões a todas as horas do dia como um nevoeiro espesso e vai-se tornando ensurdecedor. A solidão ganha cheiro, cor e formas, são as formas das cadeiras vazias, do quarto onde os peluches e os carrinhos estão agora arrumados numa caixa transparente que deixas primeiro no chão do quarto, e depois no roupeiro do quarto, e finalmente na dispensa ou na arrecadação. De repente já não há reuniões na escola, atividades ao final da tarde, jogos de futebol ao sábado ou aulas de surf ao domingo. Já não precisas de cozinhar o almoço e o jantar nem de preparar a roupa de desporto para o dia seguinte, de esperar até às duas da manhã para dar uma boleia para casa. De repente, mesmo com a chave de casa no bolso, eles já não regressam ao final do dia, os abraços passam a ser semanais e a rotina diária é substituída por uma refeição ao domingo, negociada a ferros. Os teus filhos adoram-te, agradecem-te tudo o que fizeste por eles, mas já abriram as asas, já têm a vida deles, que não é a mesma do que a tua.

Durante as férias de Verão tentas ainda, por vezes com sucesso e outras sem nenhum, passar as férias juntos, em família. E saboreias esses dias com avidez disfarçada, vais dando os abraços que consegues aqui e ali, à socapa, como quem não quer a coisa, e tiras selfies com eles porque queres registar todos os momentos de comunhão familiar no teu álbum de fotografias virtual que agora é partilhado para o mundo no Facebook e no Instagram. Eles torcem o nariz, não gostam de ser usados como troféus de felicidade. Quando tinham 12 anos nem pensavam nisso, eram os nossos bebés embora já crescidos, não nos punham em causa e mesmo quando nos desafiavam, sabíamos como lhes dar a volta.

O ninho está vazio e a vida continua. Aguentas a solidão e o silêncio, que aceitas porque não tens outro remédio, mas na verdade nunca te habituas porque nunca deixas de ser mãe ou pai.

Ter filhos é aprender a viver com o coração fora do peito para sempre. É aceitar que eles são diferentes que nós, que não nos pertencem, que Deus ou o Universo nos deu de empréstimo e nos incumbiu de os educar da melhor forma possível, para se tornarem pessoas autónomas, empáticas, responsáveis e felizes. Isso sim, é andar sem rodinhas, e tantas vezes com uma roda apenas, qual equilibrista forçado num circo que há muito fechou as portas e desmontou a tenda. É quando eles crescem que aprendemos a andar outra vez, como aquele dia em que o nosso pai nos tirou as rodinhas e disse, tu consegues, tu consegues.

Não temos outro caminho senão conseguir, porque a vida continua, a vida nunca para, nem quando o coração se desliga, nem quando aqueles que mais amas te desiludem, nem quando os oceanos subirem e galgarem terreno nunca antes inundado. Bem-vindo ao mundo como ele é. Só os netos te poderão resgatar da travessia inevitável e no entanto nunca esperada, porque no nosso coração os filhos nunca crescem, o que cresce é o amor que sentimos por eles.

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