Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Ser Mulher

Somos aquilo que nos inspira e que nos amamos. Eu sou da geração do 25 de Abril, a liberdade inspirou-me a dizer e a escrever tudo o que penso.
07 de março de 2020 às 13:59
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Ser Mulher

Somos aquilo que nos inspira e que tanto amamos. A frase não é minha, nasceu durante uma conversa telefónica com o meu amigo Bernardo que podia ser bailarino, ator ou manequim, com alma de poeta involuntário, autor de tiradas geniais e de uns bifes espetaculares acompanhados de um arroz branco tão solto de fazer inveja ao Chef mais exigente.

Somos aquilo que nos inspira e que tanto amamos. Somos um espelho com traços distintos dos nossos pais e irmãos e de todas as pessoas que mais contribuíram para desenhar a nossa personalidade e para construir os alicerces do nosso caráter. Quase sempre é assim, mas por vezes somos o contrário, quando aquilo que vivenciámos antes da idade da razão nos marcou pela negativa, cristalizando-se dentro do peito com uma etiqueta que diz. Nunca Fazer Assim.

Eu tive duas avós, uma feliz e uma infeliz. A primeira estava sempre a pensar no que era melhor para os filhos e os netos e a outra estava sempre à espera do pior dos filhos e dos netos. Uma era cheia de cores e de bolos com chantilly, de ao cinema e de passeios pela praia e a outra racionava os croquetes e as línguas de gato e nunca nos levava a passear, porque ela nunca ia passear. A avó feliz vestia-se com cores alegres, pintava o cablo de loiro e possuía uma coleção maravilhosa de lenços e de luvas de todas as cores, saídas de praia dignas de Grace Kelly, estampadas a flamingos e pavões. A segunda trajava de preto dos pés à cabeça, tinhas o cabelo branco e usavas óculos com aros de massa pretos. Podia parecer uma professora de matemática dos tempo do Estado Novo, mas era apenas uma latifundiária de pequeno porte e muito personalidade.

Quando ainda não tinha atingido a idade da razão, é já sentia dentro do meu peito que seria como a avó loira, com gosto por roupas bonitas, um pézinho para viagens sempre que possível, uma certa predileção por saldos e promoções e o gosto eterno de entrar numa sala de cinema, mesmo que a fita não seja lá grande coisa, usando expressões da própria, que, perante uma comedia romântica com pouco interesse, lhe valia o comentário cheio de bonomia, ao menos é uma fita que dispõe bem.

Foi com ela que aprendi que mais vale levar a vida com alegria do que com tristeza, mais vale ajudar o próximo do que deixá-lo cair, mais vale ficar calada do que dizer mal de alguém. Com ela também aprendi que quando uma senhora fica loira nunca mais deve deixar de o ser e que a beleza e a elegância atravessam a idade com leveza se soubermos deixar-nos levar pelo lado bom, da vida.

Somos aquilo que nos inspira e que nos amamos. Eu sou da geração do 25 de Abril, a liberdade inspirou-me a dizer e a escrever tudo o que penso,  sou filha, neta e bisneta de mulheres fortes, os seus genes e os seus exemplos ensinaram-me a dar o peito às balas e a enfrentar qualquer conflito sem medo. O meu querido amigo Bernardo diz que se eu fosse forcado, estaria sempre à frente, pronto para ir à cara do outro. Inútil explicar-lhe que é quase sempre o primeiro ajuda quem leva o impacto maior, seja como for, nunca se sabe o que pode acontecer numa pega de frete. Aquilo que se sabe é que os mais fraquinhos se posicionam no fim da linha dos forcados e um deles puxa a cauda do bicho para ao cansar. O que a vida me ensinou foi a nunca ser o Rabejador, aquele que espera que todos digam o que pensam para dar a sua opinião.

Acredito que faz parte de ser mulher ir sempre à frente, ser pioneira, ser batedora, e já agora que sou escritora, usar todas as palavras para dizer tudo aquilo que considero importante, pelas mulheres e pelo mundo. Ser mulher é muito mais do que ser uma boa filha e uma boa mãe, uma esposa exemplar, uma excelente educadora, uma trabalhadora incansável, uma boa dona de casa com jeito para os tachos e brio nas limpezas e nas artes do ferro de engomar. Ser mulher é seguir a inspiração de quem mais se ama para ser a inspiração daqueles que nos amam e nos seguem. Ser mulher é sobretudo aprender a ser feliz, para poder espelhar a felicidade.

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