Francisco Moita Flores
Francisco Moita Flores Piquete de Polícia

Notícia

O voto em Bolsonaro

A corrupção que era, e continua a ser, parte do sangue do poder.
03 de fevereiro de 2019 às 15:17
...
O voto em Bolsonaro

Olhar o Brasil com olhos europeus descaminha sempre para a explicação fácil e para interpretações que têm mais a ver com as nossas preocupações do que com a concreta realidade brasileira. Vejo e leio o beatério nacional, peitos empanturrados de lições democráticas, a dissertar sobre a bestialidade de Bolsonaro, sobre a bondade de Haddad, e percebe-se que se lhe escapa a essência do problema.

Estava no Brasil quando Lula ganhou pela primeira vez a presidência da República. Assisti a dois comícios de PT, aliás as duas únicas vezes que vi o velho sindicalista, prometendo duas coisas que eram, na altura, essenciais: combater a corrupção e afrontar, de vez, a pobreza.

A corrupção que era, e continua a ser, parte do sangue do poder. Seja ele qual for. Do ministro ao polícia, do funcionário ao administrador. Lula teve vitórias sobre a pobreza. Não ganhou a guerra mas libertou alguns milhões dos limites da sobrevivência. Porém, o PT caiu no natural rio corrupto que determina a marcha do poder brasileiro. O mesmo rio onde vai acabar Bolsonaro. A revolta contra o PT nasce aí. O farol de esperança que se deixou prostituir. Porém, não é este o cerne do problema brasileiro. Basta consultar o Atlas da Violência. Nos últimos 11 anos, foram assassinados no Brasil 553 mil pessoas. Em 2016, foram assassinadas 62 mil. No conjunto da última década, foram assassinados 324 967 jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos. Isto é, sete vezes mais mortos do que soldados americanos no Vietname, numa guerra que durou cerca de 20 anos. O índice de mortalidade violenta no Brasil é 30 vezes superior à média dos homicídios no espaço europeu e o mais de meio milhão de vítimas ultrapassa, em número de mortos, aqueles que na Síria combatem em guerra aberta.

É neste contexto de violência excessiva, brutal, que Bolsonaro viu o alicerce para a sua campanha. Responder ao medo com palavras de ordem e armas na mão. Com frases tão assertivas como "prefiro ter as prisões cheias de bandidos do que cemitérios cheios de vítimas". Este é o segredo da vitória de um homem menor, de um político medíocre contra as ignorantes elites brasileiras. E já agora contra as portuguesas. 

Mais notícias de Piquete de polícia

As vítimas e a lei

As vítimas e a lei

A Assembleia da República, com carácter excepcional, devia aceitar legislar no sentido de escutas, gravações de voz, gravações de imagem fossem consideradas legítimas para provar uma naipe de crimes que vão do assédio, à violência doméstica, passando pelos crimes sexuais.
A alma dos mortos

A alma dos mortos

Não é assim tão rara a existência de progenitores que matam os filhos. É um acontecimento trágico que perturba a comunidade.
O helicóptero

O helicóptero

Escutamos os governantes que adoçam a coisa. Os especialistas que lhe metem acidez. Ficamos a saber tudo sobre helicópteros e regras (não cumpridas) de Protecção Civil comodamente revoltados no sofá.
O motim

O motim

Ser carcereiro deve ser uma das piores profissões do mundo. Ainda por cima muito mal pagos. No caso português, mal pagos, com falta de efectivos, e sem expectativa. O crime dos guardas prisionais é a sua profissão.
Dinheiro e Justiça

Dinheiro e Justiça

O Orçamento de Estado tornou-se numa tonta novela, no que respeita à sua discussão.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!