Francisco Moita Flores
Francisco Moita Flores Piquete de polícia

Notícia

O hábito e o monge

Em nome de uma fé cega, e sem vigilância crítica, é possível encontrar resquícios do Portugal antigo, medieval, sujeito à crença, dominado pela crueldade de um sacerdote. Foi assim há muito tempo. É assim hoje.
02 de junho de 2019 às 08:00
...
O hábito e o monge
Foto: Nuno Fernandes Veiga

A coisa ter-se-á passado em Requião. Chamam-lhe a Fraternidade Missionária Cristã. Era controlada por um padre e, em clausura, viviam várias mulheres que usavam vestes de freira. Soube-se, muitos anos depois, que não eram freiras a sério. Nunca teriam realizado as práticas iniciáticas que lhes dariam esse estatuto. E viviam em reclusão.

Com práticas ascetas, sublinhando o sofrimento como penitência e o caminho para encontrar Deus, muito na tradição medieval de que o corpo, por via do martírio, se libertaria dos pecados capitais, conseguindo ceder a alma purificada à paz celestial. Algumas dessas mulheres insurgiram-se. Os maus-tratos, a brutalidade do trabalho, o castigo repetido, a clausura forçada iam para além do amor a Deus. Uma delas suicidou-se. Outras apresentaram queixa e, finalmente, as líderes desta mini seita e o respetivo padre estão à espera de redenção do crime de escravidão. Na verdade, o hábito não faz o monge.

Porém, em nome de uma fé cega e sem vigilância crítica, é possível encontrar resquícios do Portugal antigo, medieval, sujeito à crença, dominado pela crueldade de um sacerdote. Foi assim há muito tempo. É assim hoje.

Esqueçamos as putativas freiras. Voltemos ao princípio. Continua o massacre de mulheres vítimas de violência doméstica. Quando escrevo, o último caso foi perto de Amarante. Um ex-companheiro, anos depois da separação, decidiu matar a mulher e o atual namorado. E matou-os brutalmente. Procedeu como todos os restantes. Pese a separação, aquela mulher, com quem vivera, julgava o assassino que era dele até que a morte os separasse. Era dele, como propriedade, entenda-se. Um título de propriedade. Uma coisa da qual ele poderia dispor até ao fim dos seus dias. Uma coisa sem direitos. Que os perdera todos no dia em que aceitou casar com ele.

Se o amor pode desvanecer-se, se não for alimentado, a propriedade é coisa imperecível durante séculos, incluindo um dote material, pertença daquele homem que, assim, possui maior fortuna. Enfiando no mesmo saco a Fraternidade Missionária e os assassinos de mulheres, compreendemos melhor que somos tudo ao mesmo tempo. Que este Portugal tem tanto de moderno como de medieval, provocando as mesmas vítimas e incapaz de compreender a luz dos direitos de cidadania e da Liberdade.

Mais notícias de Piquete de polícia

E se for crime?

E se for crime?

Nos últimos tempos multiplicaram-se movimentos anti-científicos, de índole salvífica. É neste contexto que deve ser compreendida a atitude de certos pais que recusam vacinar os seus filhos, deixando-os expostos a uma imensidão de riscos em que a morte espreita.
O hábito e o monge

O hábito e o monge

Em nome de uma fé cega, e sem vigilância crítica, é possível encontrar resquícios do Portugal antigo, medieval, sujeito à crença, dominado pela crueldade de um sacerdote. Foi assim há muito tempo. É assim hoje.
Meninos sossegados

Meninos sossegados

É vulgar encontrar pais que exaltam as virtudes dos seus filhos – o que não é de estranhar – com um conforto especial. A explicação é invariavelmente a seguinte: é muito sossegadinho. Não brinca na rua e passa o tempo fechado no quarto em frente ao computador.
Maddie. Quem não sabe, teoriza

Maddie. Quem não sabe, teoriza

E passados quinze anos e doze milhões de libras, continua sem se saber do paradeiro da pobre criatura. Mas há coisas que sabemos.
A conversa da segurança

A conversa da segurança

Todos os anos, por esta altura, o governo divulga o Relatório de Segurança Interna. Todos os anos se repete a farsa.
O Caso Luís Grilo

O Caso Luís Grilo

Dentro dos prazos, saiu a Acusação contra Rosa e Fernando, acusados de em coautoria terem assassinado o marido da primeira, o triatleta Luís Grilo. Agora, que sabem o que defende o Ministério Público, é chegada a hora de conhecermos a perspetiva da Defesa dos dois presumíveis autores.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!