'
Luísa Jeremias
Luísa Jeremias No meu Sofá

Notícia

E agora a culpa é "dos supermercados": os números da vergonha

A culpa é destas bestas em que nos tornámos, incultos, estupidificados, paus-mandados que só sabemos obedecer a proibições e não conhecemos o sinónimo de liberdade de escolha e de pensarmos.
23 de janeiro de 2021 às 18:46
...
Ambulâncias no hospital de Santa Maria, Lisboa, com doentes covid-19 Foto: instagram
Se o que se faz neste 'meu sofá' é ver televisão, então esta semana esta crónica é sobre aquilo a que se assiste em tempo de pandemia: ao horror e à vergonha em que se transformou este País que mente, descaradamente, a si próprio sobre comportamentos, sobre a sua saúde e a dos outros.

Ver televisão transformou-se num flagelo, num ato de masoquismo, de questionamento sobre "como chegámos aqui". O que vemos? Hospitais em caos, depoimentos desesperados de profissionais de saúde, gritos de ajuda, dedos esticados a indicar culpas e mais culpas.

Culpa do Governo, culpa do Natal, culpa dos restaurantes, culpa até dos supermercados. Culpa de toda a gente menos de nós. Menos dos encontros que se mantiveram dos quais se postaram fotos nas redes sociais com a legenda "só tirámos a máscara para a foto". Que falta de amor-próprio! Que falta de respeito pelos nossos. Ah, pois é, o Governo não proibiu tirar selfies... por isso continuámos a tirar, não foi? Também não proibiu os jantares em casa. Só com grupos grandes. Por isso fizemos. Afinal, a Polícia não entra numa casa particular, não é?

Vivemos num País – concluo no dia em que escrevo esta crónica e, sentada no meu sofá, assisto à catástrofe de haver mais de 200 mortos num só dia, num País minúsculo, com menos de dez milhões de habitantes – de burros.

A culpa não é do Governo, nem dos profissionais de saúde que já não têm mãos a medir nem capacidade para salvar todos. A culpa é destas bestas em que nos tornámos, incultos, estupidificados, paus-mandados que só sabemos obedecer a proibições e não conhecemos o sinónimo de liberdade de escolha e de pensarmos. Que não raciocinamos no certo e no errado. Que nos tornámos analfabetos pretensiosos, sempre prontos para pôr a cabeça a funcionar para arranjar um "esquema" para enganar "a lei" mas incapazes de perceber a gravidade da situação, a não ser, infelizmente, quando "bate à porta."

E agora queixem-se do desemprego, e da falta de apoios e do raio que parta. Acordem! Percebam o valor da liberdade e do respeito. É só.

Mais notícias de No meu Sofá

Deus leva primeiro os que mais ama

Deus leva primeiro os que mais ama

Dizem que Deus leva primeiro os que mais ama. Eu diria antes: aqueles que são belos demais para este mundo. E a Sara já era um anjo, não uma menina.
Quem é do mar regressa sempre ao mar

Quem é do mar regressa sempre ao mar

Do Pedro prefiro guardar o seu sorriso tão doce e tão despojado. Prefiro lembrar o seu trabalho dedicado a cada personagem, o seu tom sempre elegante e de cavalheiro, o seu amor pelo mar. É lá que ele se sentia livre. E é lá que viverá para sempre.

Mais Lidas

+ Lidas