Luísa Jeremias
Luísa Jeremias Planeta cor de rosa

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O eterno miúdo que nunca será vilão

Ronaldo é um ídolo, a quem tudo é desculpado. Tudo. Porque é o melhor do mundo e nos dá alegrias. Isso basta-nos.
01 de agosto de 2017 às 06:00

O empresário Jorge Mendes foge (alegadamente) ao fisco e, na boca do povo, passa a Ser um bandido. Um bandido cheio de dinheiro que arrastou consigo os pobres rapazes que nele confiavam e lhe asseguravam (e à sua equipa de colaboradores) os milhões que ganhavam nos clubes, nos jogos privados, nas presenças, nos acordos comerciais que fechavam, nas campanhas publicitárias, enfim, em tudo o que à sua volta mexia. 

Jorge Mendes, no seu papel de poderoso empresário, nunca se livrará da fama. Com o escândalo da fuga ao fisco em espanha, mesmo aqueles que ajudou já esqueceram tudo o que ganharam a sua conta. Agora só interessa limpar a imagem, seguir em frente e encontrar culpados para o caso - que será sempre o elo mais fraco desta cadeia. 

Mas não é isso que importa aqui.

Importa Ronaldo. 

Ronaldo chegou a tribunal na manhã do ultimo dia de Julho de 2017, acompanhado pelos amigos de casa, depois de um verão turbulento. Fechou-se no carro, passou rapidamente pela sala de audiências para se declarar inocente, para dizer que não tem nada a ver com aquilo de que falam. Por isso não está ali para ajudar na investigação. Está ali para dizer que não tem nada a ver com aquilo. 

Ronaldo é um ídolo, a quem tudo é desculpado. Tudo. Porque é o melhor do mundo e nos dá alegrias. Isso basta-nos.

Por isso estamo-nos a borrifar para o facto de ter ou não ocultados uns milhões do fisco, encaminhados por alguém que não ele (evidentemente ele tem outras coisas com que se preocupar e é para isso que paga a super agentes e empresas) para uma conta qualquer algures no planeta, ou investidos num dos muitos projectos com o seu nome. 

Ronaldo está errado? Ronaldo é vilão? De acordo com um estudo divulgado na imprensa espanhola, que a Flash recuperou antes da ida do craque a tribunal, CR7 não podia ser mais vítima. Afinal, só uma ínfima parte da população não faria aquilo de que ele é acusado (de acordo com o mesmo estudo). 

Com o seu ar de catraio, aquele estilo de vida de miúdo de casa, que sonha constituir família longa para apagar os traumas do passado (mesmo que não recorra a métodos convencionais), pródigo em mimar a mãe, os amigos do peito, o filho (claro) e decidido a mover-se num núcleo restrito de pessoas, em quem tem confiança absoluta - que orbita em seu redor e a quem isso basta - pois assim não corre riscos, Ronaldo tem a benção de todos e a sentença traçada de inocente. 

Vilões são os políticos, os que ganham dinheiro e se tornam arrogantes, os que não se rodeiam da família. Vilões são os que falam e não os que se mantém calados. 

Ronaldo, como o irmão mais velho conta sobre a família num documentário com o nome do craque, aprendeu cedo que o silêncio é a alma do negócio. Assim fez com os filhos que encomendou, com as namoradas que arranjou, e assim faz agora com a polêmica dos dinheiros. Quando tiver de pagar - se tiver - ninguém saberá. Nem sequer será doloroso. Dolorosa só está chatice de andar nas bocas do mundo por causa de um assunto destes. Nada que a mão na cabeça do presidente do clube, Florentino perez, não ajude a dissipar, e a festa que os amigos fazem, não façam esquecer rapidamente. 

Depois joga-se a bola, fazem-se uns golos à matador e já está. Quem se vai lembrar da polêmica? Isso e para os poderosos. Não para os deuses.

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