Luísa Jeremias
Luísa Jeremias Planeta Cor-de-Rosa

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Os pastéis de Belém nunca serão iguais aos 'duchesses' da Suiça

Mais do que fazer parte das minhas memórias, a Suiça também é Lisboa. Conta muitas histórias da cidade, esconde tantas outras. Secretas, inimagináveis mas que explicam muito do que foi e é Portugal.
24 de julho de 2018 às 17:46
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Os pastéis de Belém nunca serão iguais aos 'duchesses' da Suiça
Foto: istock
Há memórias "de pai" e memórias "de mãe". No meu universo infantil havia coisas que só aconteciam ao lado do meu pai: ir a Belém, sentar-me nos Pastéis no fim da tarde, ver o ardina com um saco gigante cheio de jornais entrar por ali dentro à procura de quem comprasse, escolher a mesa, pedir um pastel "clarinho" e enchê-lo de açúcar em pó e alguma canela - para depois ficar com a cara toda pintada. Eram tardes suaves, "em casa", feitas de luzes amareladas, mesas escuras e com sabor a inverno. Era a Belém que eu conhecia com travo doce, cheiro a papel-jornal e perna traçada à mesa.

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pastéis de Belém Foto: istock
As tarde "da mãe" eram bem diferentes: na Baixa, numa andança para cima e para baixo, entre a rua Augusta e o Chiado, dos Porfírios e da Casa Africana à Garrett. Eram tardes com cheiro a castanhas assadas, a fumo de assador pelo ar, tarde de passos pequeninos para ver as montras todas e que terminavam quase sempre com um batido na Suiça. 

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Lisboa Foto: istock
Era tudo muito simples: andávamos, andávamos e acabávamos sempre ali sentadas as duas, nos sofás confortáveis, onde se escutava a conversa da mesa ao lado e se namoravam os bolos com aspecto maravilhoso nas vitrines da pastelaria. Eu adorava olhar os bolos, que achava lindos de morrer: artísticos, cheios de rococós, com cerejas no topo, cremes coloridos e muito, muito chantilly. Os duchesses eram os meus preferidos, todos eles ondas fofas.

Agora imagine-se a minha frustração: eu que adorava ver os bolos, detestava o sabor. Enjoavam-me, pronto. Coisas das natas, do chantllly, dessas francesices que nada tinham a ver com o meu paladar infantil, mais atirado aos bifes com batatas fritas. Lindos de ver, mas só de ver. Porque por muito que pedisse à mãe para "provar um bocadinho", a coisa acabava sempre mal. E assim, o batido era bem mais seguro! 

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pastelaria duchesse Foto: dr
De forma que, quando se soube que o quarteirão da Suiça estava a mudar, que a pastelaria iria fechar portas, não pude deixar de pensar nos duchesses. Os duchesses porque foram o meu sonho e o meu desalento gourmet infantil. A Suiça porque, na verdade, me acompanhou a vida inteira. Os lanches com a mãe passaram a idas esporádicas ao balcão para o cafezinho "à antiga" - em vez da "bica" como existia em todo o lado. Não havia Natal sem bolo-rei de lá, e muito menos sonhos macios. Nem havia Páscoa sem uma variedade de amêndoas de chocolate e de licor pesadas em lindo sacos de papel na balança. Tradições que sabiam tão bem...

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pastelaria Suiça Foto: dr
Mais do que fazer parte das minhas memórias e do que sou hoje, a Suiça também é Lisboa. Conta muitas histórias da cidade, esconde nas suas paredes, nos tais sofás e recantos, tantas outras. Deliciosas, secretas, inimagináveis mas que explicam muito do que foi e é Portugal. 

Não é que morra um pedaço de nós quando algo acaba. Tudo tem princípio e fim. Mas há coisas que nos fazem falta. São as nossas "bases", alimentamo-nos delas, fazem-nos falta. Esta era uma delas. Minha, pelo menos. Porque existia. Estava ali, simplesmente, e isso era recortante. Como qualquer sofá da casa dos pais. E, agora, vai deixar de estar.

A morte é mesmo uma chatice...

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Rossio Lisboa Foto: istock


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