Luísa Jeremias
Luísa Jeremias No meu Sofá

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Quem é do mar regressa sempre ao mar

Do Pedro prefiro guardar o seu sorriso tão doce e tão despojado. Prefiro lembrar o seu trabalho dedicado a cada personagem, o seu tom sempre elegante e de cavalheiro, o seu amor pelo mar. É lá que ele se sentia livre. E é lá que viverá para sempre.
29 de junho de 2020 às 21:09
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Quem é do mar regressa sempre ao mar
O meu pai partiu no mesmo dia em que Pedro Lima desistiu de lutar pela vida aqui na Terra. Foi há cinco anos. O meu pai, como o Pedro, amava o mar. Por isso, é lá que o recordo, o venero, me reencontro com ele em cada mergulho de água gelada.

Na manhã de sábado acordei cedo. Antes das sete. Andei pela casa, empatei as horas, deambulei até ser acordada pela notícia. O corpo que havia sido encontrado na praia do Abano, no Guincho, pertencia, afinal, ao Pedro Lima. Não pode ser, pensei. O Pedro? "O" Pedro???? O Pedro que sorria sempre, sorriso verdadeiro, aberto, sincero. Sorriso que parecia de paz, de amor à natureza, de quem está "de bem" com a vida? Mas era.

A partir daí não houve tempo para pensar muito. Só para tentar perceber, para questionar. Que raio se passara? "Deixem vir o relatório da autópsia. Nós não sabemos. Nós não sabemos o que se passava na vida dele, o que passava pela cabeça dele", repetia como se quisesse acreditar numa espécie de milagre. Qual? Que ele não tinha desistido. Que algo acontecera. Fora pressionado, assassinado, vítima de um acidente, sei lá. É complicado entendermos que alguém desista de estar aqui. Todos temos esse direito, é verdade. Mas até esse pode ser questionado se pensarmos "nos que ficam". E que sofrem. Porque não compreendem.

Ninguém erra. Ninguém tem culpa. Nem sequer quem decide ir. Vai porque já não suporta, porque não está bem, porque não aguenta. Porque, na balança da vida, o peso do que é maravilhoso não chega para suportar o da dor. É isso. É uma merda.

Do Pedro prefiro guardar o seu sorriso tão doce e tão despojado. Prefiro lembrar o seu trabalho dedicado a cada personagem, o seu tom sempre elegante e de cavalheiro, o seu amor pelo mar. É lá que ele se sentia livre. E é lá que viverá para sempre. Nas suas ondas que podem ser tão belas quanto assustadoras e que abraçam sempre quem as enfrenta e nelas se sente inteiro. Vivo.

Nesse sábado, no fim do dia, dei um mergulho no mar. Não em ondas ameaçadoras. Num mar sereno e gelado. Pensei naquele dia, pensei no outro, há cinco anos. E despedi-me.

Que descansem em paz.

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