Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto

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A desordem, outra vez

Não conheço nenhum escritor vivo ou morto que não tenha caído na tentação de se perder em cartas.
15 de novembro de 2019 às 16:12
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A desordem, outra vez
Foto: D.R.

Era uma vez uma miúda que queria ser escritora. Tinha totós e começava quase todas as respostas por "mas é que". A mania era tão grande que aos sete anos a mãe já lhe chamava a menina Mazéque. Ainda hoje me chama, e eu não me importo. Agora que sou mesmo escritora, tenho de pedir ao meu editor que limpe dos manuscritos a maior parte das frases que começam com o mais fácil e popular adversativo. Com o tempo, aprendi a treinar e a agilizar outros tantos: no entanto, contudo, porém, não obstante, apesar de, embora. Não muitos mais, estes chegam. Mas o "mas" está lá sempre, ou não fosse eu a menina mazéque. 

Esta semana chegou às livrarias o meu mais recente romance, A Desordem Natural das Coisas. Este é um livro que começou por ser mais uma carta de amor. Quem me lê, sabe como sou apaixonada por cartas de amor e quantos livros já escrevi nesse formato, sejam eles apenas de uma carta que serve de fio condutor para toda a narrativa, de troca de cartas, e ainda de romances que têm cartas pelo meio. Um dos meus romances históricos é sobre as cartas de Mariana Soror Alcoforado que foram, nada mais, nada menos que precursoras do movimento do Romantismo, talvez um dos mais importantes da História da Literatura Mundial. As cartas estão para os meus livros como a massa de vidraceiro está para os senhores que trabalham em caixilharia; sem aquilo, parece que as histórias não ligam como a massa dos bolos. 

As cartas, sejam elas de amor, de amizade, de ódio, de louvor, de apresentação ou de despedida, não nos deixam mentir. Não conheço nenhum escritor vivo ou morto que não tenha caído na tentação de se perder em cartas. Como escreveu Joaquim Sabino à sábia amiga e companheira de letras Clarice Lispector, é tão bom escrever de brincar. E as cartas dão para isso mesmo; tanto podem ser leves e divertidas, brincalhonas e trocistas, como sérias, apaixonadas, profundas e sentimentais. A desordem natural da vida levou-me a que aquela carta inicial se transformasse num romance com quatro partes, cada uma com um tempo, no qual encontramos o passado, o presente, o futuro e o tempo paralelo. O tempo paralelo é aquele tempo que nunca vivemos onde estão as saudades daquilo que nunca chegámos a ter. O país do tempo paralelo é a Terra do Nunca; um lugar mítico e mágico que só existe dentro da nossa cabeça e, ás vezes com sorte, na cabeça daqueles que amamos. É o infinito mundo de possibilidades que a vida nos vai dando e tirando à medida que fazemos escolhas. Mas, - e quem vem ele outra vez – também é fruto das partidas que a vida nos vai pregando. Mafalda, a protagonista reflete sobre isto quando imagina como teria sido a sua vida se naquela tarde de Julho não tivesse entrado naquele restaurante e conhecido Rodrigo. O mais provável era ter-se apaixonado por outra pessoa, com quem poderia ter casado, viajado, dividido uma casa e uma vida. Sendo nós, portugueses, um povo de sonhadores, quem não se perdeu já por este tipo de reflexões? 

A vida é sempre outra coisa. Quando temos 20 anos e fazemos planos para o futuro, escolhemos os nomes dos filhos que queremos ter e imaginamos que cidades queremos visitar. Eu ando a planear ir a Tóquio desde essa idade e nunca aconteceu. 

Os meus personagens que tentam encontrar algum sentido e rumo na desordem que reina nas suas vidas, acabam por encontrar algum caminho? E quando o encontram, será que têm a coragem de o percorrer? Como termina a travessia emocional de Mafalda, que procura um caminho entre o passado com Rodrigo e o presente com António? 

É verdade que nem todas as respostas para as nossa dúvidas se encontram nos livros e que os livros não mudam o mundo. Mas mudam as pessoas e são as pessoas que mudam o mundo.

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