Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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A falta que me fazes

Sempre que estamos juntos falamos de trabalho e de projetos, trocamos músicas e recomendações de séries, desligamos do mundo e ficamos ligados um ao outro por mil fios que se multiplicam cada vez que ficas mais um bocadinho na minha cama.
22 de novembro de 2019 às 12:13
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A falta que me fazes
Foto: D.R.

Andamos nisto há que tempos, tu cheio de trabalho na start-up que de repente cresceu como uma praga de cogumelos desde que acabou o Web Summit, e eu sem conseguir respirar por causa da minha conta do Insta onde vendo vestidos hippie-chic, botas ao estilo de Ibiza e todo o tipo de adereços que as pessoas gostam de usar em festivais. A minha grande sorte chama-se Burning Man, o festival mais carismático e maluco de todos. Foi graças a ele que se criou esta onda de fantasia, de repente toda a gente pensa que é o Tim Burton a inventar fatos excêntricos para cenários fantasiosos, ora apocalíticos ora pacíficos, ao sabor da imaginação e do disparate, e já se sabe que nem uma nem outra têm limites. E pensar que comecei nisto por brincadeira, farta do último ano do curso numa universidade que cheira a mofo e tem professores que parecem saídos de um cemitério e cansada de andar sempre um bocado atrás de ti, que é que tem sido a minha vida nos últimos anos. 

Tu és aquilo tipo de homem simultaneamente querido e ausente, afável e fugidio, caloroso e misterioso, o herói involuntário que aparece nos filmes de todos os géneros. És criativo, inteligente, usas um perfume espetacular, tens a pele igual à minha e dás os melhores beijos do mundo. Sempre que estamos juntos é tudo tão bom e tão simples que dou comigo a pensar que voltarás nesse mesmo dia. O problema é que tu tens tudo, pelo menos no que ao meu coração diz respeito, para me tirar do sério. Nem se pode dizer que sejas um tipo bonito, corpanzil não te falta, mas tens um nariz que chega a Cacilhas antes do barco sair de Lisboa e a linha do queixo bem marcada. Se te penteasses mais vezes talvez isso suavizasse o ar esgrouviado. E se passasses as calças a ferros, gesto que nem te passa pela cabeça, ficarias mais composto. Gosto mais de te ver de sapatos do que de ténis e de fato do que camisola de capuz, por isso fantasio que quando chegares aos 40 e te cansares dessa vida de solteiro diletante, casamos numa ilha qualquer perdida no Pacífico e dou uma volta ao teu guarda-roupa quando deixares que dê uma volta à tua vida. 

Sempre que estamos juntos falamos de trabalho e de projetos, trocamos músicas e recomendações de séries, desligamos do mundo e ficamos ligados um ao outro por mil fios que se multiplicam cada vez que ficas mais um bocadinho na minha cama, no meu sofá ou encostado ao balcão da cozinha e ver-me preparar sopas nutritivas, smoothies originais ou saladas inspiradas. 

Não sei há quanto tempo andamos nisto, eu sempre um bocadinho atrás de ti como quem não quer a coisa, a tentar convencer-me que nem sou assim tão maluca por ti, só me interessas por seres um tipo brilhante com um gosto musical espetacular. Vou levando este disparate o melhor que consigo, como se uma força misteriosa e indomável me impelisse na tua direção. Hás dias comecei a ver uma série japonesa sobre o surgimento da indústria pornográfica no Japão. O protagonista foi vendedor de enciclopédias antes de ficar milionário com revistas e cassetes betamax e revi-me nas cenas dos primeiros episódios em que ele leva várias vezes com a porta na cara. Não sei bem o que pensar quando te envio mensagens e não me respondes, respiro fundo e finjo que isso não me faz mossa porque no dia seguinte tu dás sinal e de uma forma ou de outra lá nos vamos acertando no tempo e no espaço, e sobretudo no modo que faz com que cada regresso teu seja leve, simples e perfeito. A verdade é que tu ocupas muito espaço na minha vida e no meu coração, quando estás e quando não estás, portanto meu querido despenteado mental, vê lá se não demoras muito desta vez porque a vida passa a correr, tudo é breve, tudo se dissipa e se desfaz, menos esta loucura por ti, um misto de paixão, de admiração e de teimosia que me faz ficar com a cara toda iluminada sempre que voltas para o meu mundo, onde o disparate e o prazer não têm limites. E podes ficar, para que o vazio e o silêncio se desfaçam, quem sabe, durante muito tempo, a ponto de esquecer a falta que me fazes.

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