Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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A menina Clarinha e eu

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor.
13 de julho de 2020 às 14:41
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A menina Clarinha e eu
Foto: Cofina Media

Quando, por mais que tente, a inspiração não me apanha na secretária, ultimamente tem-me dado para fazer bolos de laranja. Nunca fui dada à doçaria, nem à confeção nem ao consumo, o gosto por doces chegou tarde ao meu sistema sanguíneo. Em miúda, molhava os dedos no saleiro da cozinha quando me sentia cansada e, com exceção para a mousse de chocolate, não me interessava pelo assunto. Bolachas, só de água e sal, um papo seco ganhava sempre a um pão de leite e só me interessei por croissants quando, já crescida, em hotéis de cinco estrelas, os descobri, muito pequenos, leves e estaladiços. O confinamento fez com que todos descobríssemos muitas coisas sobre nós próprios e também sobre os outros. Eu descobri que afinal sou ótima dona de casa, que domino todos os truques para fazer máquinas de roupa rápidas e eficazes, que o pó não se limpa sozinho, mas nem custa assim tanto e que gosto de fazer bolos. 

A receita está num delicioso livro organizado por uma tia direita que juntou as receitas da sua mãe – a minha querida avó – com as da sua sogra – que nunca me foi nada. Uma coisa à antiga, mais Estado Novo é impossível, dei por mim a pensar quando recebi aquele presente no Natal, convencida de que nunca o iria abrir. Com a febre das arrumações em fase de início de pandemia, saltou-me para as mãos, começou a sorrir para mim, pediu que o folheasse e foi amor à segunda vista. Coexiste agora perto do micro-ondas, orgulhosamente exposto, e é de lá que retiro algumas receitas, todas deliciosas, bolo de laranja incluído. Acrescente-se que para o êxito de tais tarefas, comprei uma batedeira numa loja de bairro por um preço catita a quem chamo Menina Clarinha, faites la liaison.

A Menina Clarinha bate as claras sozinha enquanto misturo os outros ingredientes já com o à-vontade de quem anda a praticar. Dizem que a prática faz a perfeição, eu acredito que são a prática, a fé e a paixão. E o prazer de antecipar o prazer do resultado. É como quando estás para chegar; sinto uma Menina Clarinha dentro de peito que começa a trabalhar sozinha, é o meu desejo a crescer por ti até ficar colado à pele como as claras à tijela. E depois tu entras e o meu coração começa a crescer como o bolo no forno, mas não é à temperatura moderada à qual que chegamos lá em cima, no quarto mais perto do céu, só sei que cada visita é um festim, uma celebração, uma vertigem, uma partida, uma viagem, uma chegada, uma loucura e uma bênção. 

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor. No fundo sou como a Menina Clarinha, faço a festa sozinha, só desligo quando me arrancam as varetas e me puxam o fio da ficha dos sonhos. Eu sou a Menina Clarinha e tu és Um Peter Pan que deixou de abrir a janela, foges do prazer, do açúcar, e do mimo até ao momento em que não aguentas mais e desces a rua como uma sete ensinada pelo desejo ou pelo coração, que no meu caso, são a mesma coisa. 

Quem sabe, um dia destes, provas o meu bolo de laranja, que deve estar de gritos. Ficam sempre ma delicia, leves, fofos e molhadinhos,  cada fatia sabe a bem-estar e a prazer, e faz-me ter ainda mais saudades dos nossos beijos que são os melhores do mundo, digo eu enquanto já te sinto a agarrar-me com cuidado e saborear cheiro a laranja da minha pele, enquanto me dizes ao ouvido tudo o que a tua imaginação guardou para mim. 

Devia ter juízo, mas tenho sempre mais saudades, penso num suspiro mudo, enquanto arrumo a Menina Clarinha no armário da cozinha, já sem as varetas montadas. Nunca pensei que podia ser parecida com um eletrodoméstico, mas a pandemia tem destas coisas.

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