Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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A vida é sempre outra coisa

Os dois pombos improváveis conheceram-se no Posto 6 e chaparam um no outro. Chapar é expressão de fumador de maconha. Guerreiro é maconheiro amador, trabalha na praia, mas apenas durante alguns dias da semana, quando um funcionário do pai que tem uma barraca falha.
28 de dezembro de 2018 às 08:00
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A vida é sempre outra coisa

Nos dias em que a chuva alaga a cidade, Laura envia um WhatsApp de voz à gerente da loja a avisar que não pode fazer o turno. Laura tem 23 anos e trabalha em part-time na cadeia das lojas Havaianas, onde o aspeto dos empregados é privilegiado. Laura mede 1.76m, corpo e cara desenhados em curvas suaves e alongadas, o cabelo é comprido, sedoso e muito liso, cor de amêndoa a condizer com os olhos. Veste-se com roupas fluídas, sandálias rasas e usa ao pescoço um fio de prata com uma chapa que tem a letra G.

Nada faria prever que a menina de boas famílias do Porto, nada e criada na Foz com direito a baile de debute, vivesse agora num conjugado em Copacabana, ali bem perto da Praça da Nossa Senhora de Copacabana, não longe do túnel do qual se avista o Morro do Cantagalo.

Foi uma aluna brilhante no secundário e tudo estava a encaminhar-se da melhor forma quando, no 3º ano de Economia conheceu Guerreiro. Veio ao Rio de Janeiro com mais três amigas nas férias da Páscoa e quando voltou para casa já não era a mesma pessoa.

Os dois pombos improváveis conheceram-se no Posto 6 e chaparam um no outro. Chapar é expressão de fumador de maconha. Guerreiro é maconheiro amador, trabalha na praia, mas apenas durante alguns dias da semana, quando um funcionário do pai que tem uma barraca falha. É filho de um lutador reformado com o mesmo nome, que perdeu o olho direito numa rixa de praia por conta de um desajuste relacionado com os preços das cadeiras, ou por uma questão de território do areal, demarcado a olho nu, nunca ninguém percebeu ao certo.  O certo é que a garota de 23 anos chapou com rapaz de barba farta e cabelo espetado. Assim que o ano letivo terminou, comprou um bilhete de ida sem volta e trocou a vida de burguesa da Foz por uma paixão tórrida, o passado e o conforto por aqueles braços e ombros tatuados, a vida certa por um herói de chinelo no pé. Guerreiro, por seu lado, que já trabalhou em várias academias da Zona Sul, vai agora abrir o seu próprio centro de luta no Morro do Vidigal, onde vive a sua família.

Um conjugado é um quarto com cozinha, numa só divisão e com uma casa de banho tão pequena que podia ser de um veleiro de medio porte. Ainda assim, Guerreiro prefere pagar a renda, porque é melhor para a sua princesa do que leva-la para o alto onde a vista nem sempre compensa a tensão permanente e o betão selvagem.

Quando os conheci, enlaçados numa dança infinita de beijos enfeitados com sorrisos lúbricos, não tive coragem de perguntar a Laura como reagiram os pais perante uma mudança tão radical, uma nova realidade na qual a filha parecia mexer-se como peixe na água. Como mãe, tentei imaginara aflição da outra mãe, decerto mergulhada na angústia da incerteza, sem saber com quem a sua filha divida agora as contas, a cama e a vida.

Perto dali, junto à orla das ondas, rapazes correm desde o Arpoador até ao Posto 12, onde o Leblon quase se encosta ao morro, bem que entorta a bunda da paisagem, segundo o grande poeta Manoel de Barros. A tarde cai com a languidez cm que os apaixonados se oferecem ao prazer. Dou o último mergulho da tarde, hoje é dia de Natal. Nuca tinha passado o Natal na praia, mas a vida é sempre outra coisa. Para mim, para a Laura e para a mãe dela, que deve deve estar neste momento sentada num sofá italiano numa sala com vista para o rio Douro com um cálice de Porto na mão, conformada com o Outono da vida, fitando o pinheiro enfeitado de luzes brancas, relembrando a filha quando era ainda criança a abrir os presentes e a tentar esquecer que a sua princesinha já voou do ninho para aquele lugar do mundo onde é sempre Verão, mesmo no Inverno.

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