Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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A vida é um eterno regresso a casa

O Rodrigo vive fora há mais de 20 anos. Levantei-me, sentei-me ao colo dele, abracei-o e senti as lágrimas em catadupa.
03 de janeiro de 2017 às 13:42
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A vida é um eterno regresso a casa

- Tu pensas que tens muito tempo para tudo na vida e um dia acordas e a vida passou-te ao lado – disse-me Rodrigo, enquanto martelava com elegância uma pata de sapateira que tinha o tamanho de uma coxa de frango.

O Rodrigo vive fora há mais de 20 anos, multinacionais, promoções constantes, o ano inteiro a viajar, não sei quantas casas nos últimos anos. Fomos namorados no primeiro da Universidade.

Ele era um aluno brilhante, eu não tinha nada a ver com Economia. Mudei para Direito, mas como era no mesmo edifício, foi uma paixão difícil de largar. Depois ele escolheu o mundo e eu escolhi ficar quieta. Nunca deixámos de ser amigos.

Eu casei duas vezes e ele nenhuma. Mais de 25 anos depois está igual: magro como uma lebre, o cabelo despenteado, o queixo marcado, apenas a barba já vai estando semeada de alguns brancos.

Sempre gostei muito dele, o tempo e a distância suavizaram a paixão, foi transmutada para o país seguro da amizade, tão digno e tão discreto, onde nos sentimos sempre a salvo.

- Se fosse lento era um tartaruga, sempre com a casa às costas, mas como sou rápido, adapto-me. E agora chegou a hora de regressar a casa.

- Confidenciou-me enquanto brindávamos com vinho branco o nosso reencontro. O Rodrigo é um cidadão do mundo. Já viveu em Munique, Londres, Nova Ioque, Chicago e agora está em Milão.

Nunca casou, mas foi pai há vinte anos, resultado de uma aventura fugaz com uma manequim em Paris. Durante 20 anos via a filha sempre que podia, agora menos porque está a estudar na Califórnia, em Berkley.

- Vais voltar para Lisboa? Depois de mais de 20 anos fora? E então Milão? – perguntei, incrédula com a novidade.

- Está decidido. Já comuniquei à administração. Se me quiserem colocar cá, acho ótimo. Senão, procuro outra coisa para fazer, diferente de tudo o que fiz até agora. Ganhei muito dinheiro em aquisições e fusões, restruturações e afins, não me importava de ter um negócio pequeno ligado ao turismo, uma coisa que mostrasse Lisboa ao mundo.

- Podes sempre optar por um Tuc-Tuc – respondi de forma trocista. Não foi por mal, mas saíu-me.

- Já eras assim com 19 anos.

- Assim como?

- Sarcástica e cínica quando estavas chateada comigo. Não estás contente por eu voltar?

- Desculpa, foi uma piada parva. Lisboa está cheia de Tuc-Tucs com condutores educados e simpáticos que fazem de guias pelas sete colinas, sempre sorridentes e prestáveis. Não foi por mal, só que não te imagino a fazer coisas diferentes.

- Isso é porque já não acreditas que as pessoas podem mudar, não é?

Tento encontrar uma resposta que me desvie do seu scanner mental, mas não sei o que lhe dizer. Conhece-me como ninguém, tem razão. Depois de dois casamentos falhados deixei de ter fé na condição humana.

- Então diz lá o que te faz mudar?

- O sol. A paz. Esta sapateira. Os pastéis de nata. As castanhas assadas. A praia aqui tão perto. E o facto de ainda estares aqui sentada a ouvir-me com essa cara de miúda ao fim de tantos anos. As coisas mais simples da vida são as mais belas. Está tudo ao meu alcance, não há sucesso nem dinheiro que compense este conforto.

Levantei-me, pedi para puxar a cadeira pra trás e sentei-me ao colo dele. Abracei-o e senti as lágrimas em catadupa como duas torneiras. "Nunca pensei que voltasses", sussurrei entre soluços.

E depois regressei ao meu lugar, pedi leite-creme e um café para cada um e fomos dar um passeio pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara de mãos dadas, como dois namorados que desenham o futuro nas nuvens. A vida é um eterno regresso a casa. Demora mais para uns do que para outros. Ninguém manda no tempo. Nem no coração.

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