Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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As árvores andam malucas

Destaque: As férias no campo não são para todos. É para quem gosta do sossego, de apreciar um bom livro e ter uma coleção de cd’s de música clássica.
09 de agosto de 2019 às 14:35
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As árvores andam malucas

Sejam bem-vindos ao Verão mais bipolar do século. Até à data. Dias seguidos de chuva em Agosto fazem-me acreditar que o planeta não anda bom da cabeça. No Outono passado vi jacarandás em flor em pleno Novembro. As árvores andam malucas, pensei. Depois de consultar o Google sobre tal matéria, aprendi que esta maravilhosa espécie pode florir duas vezes por ano, uma na Primavera e outra já no final do Verão. Mas Novembro, por mais boa vontade que uma pessoa tenha, já não pode ser considerado final do Verão. E durante a época estival do ano corrente, o meu jacarandá não deu flor. Nem uma, para grande desolação do meu coração de poeta. Apenas uns penduricalhos escuros que não se parecem com nada, nem sequer com folhas murchas, quanto mais com flores graciosas! Uma tristeza.

Mas não me queixo. O Verão não é a estação da minha vida e o calor em excesso deixa-me de rastos. Sinto a tensão baixar até ao limite, os miolos começam a derreter dentro da caixa craniana, os reflexos tornam-se lentos e o raciocínio preguiçoso e enevoado. Talvez seja por isso que escolho o campo para passar a primeira quinzena de Agosto, uma casa com tanta sombra em redor e cujo o interior é tão fresco, que me ajuda a atravessar o deserto do Verão com conforto e paz. É uma casa de família onde cabem todos: filhos, netos e amigos dos filhos e do netos. Em Agosto está sempre povoada de crianças felizes e adolescentes bem dispostos. É uma casa de família, e nada como uma casa de família cheia de gente para descansar do deserto interior.

Aqui vivo rodeada de almofadas emocionais, algo bem diferente de bengalas emocionais. Uma pessoa usa uma bengala quando partiu alguma coisa. É um apoio temporário que se torna um estorvo depois de concluída a recuperação. Almofada emocionais são outra coisa: elas estão lá sempre ao fim do dia para nos aconchegar. São os abraços da sobrinhada, as gargalhadas dos irmãos, os conselhos sábios dos cunhados e o sorriso da minha mãe que diz sempre:

- Filha, ainda bem que vieste.

E nunca pergunta até quando fico, talvez por pudor, talvez por não querer pensar nisso. O bom filho à casa torna e eu sou esse tipo de filho. Para mim, Agosto é sempre aqui, longe das festas da moda, das filas para a praia e no supermercado, do rebuliço e da confusão. Aqui é tudo suave; as cores, o canto dos pássaros, a dança das árvores ao sabor do vento, o dia que amanhece em paz e que termina em glória. À noite, o céu transcende-se num véu enfeitado de estrelas até à linha do horizonte e eu penso o que é que andamos a fazer ao planeta que anda maluco e cansada e rezo para que, pelo menos aqui, o mundo não mude enão se estrague.

As férias no campo não são para todos. É para quem gosta do sossego, de apreciar um bom livro e ter uma coleção de cd’s de música clássica. Isso mesmo. Cd’s à moda antiga, é preciso tirar um quando se acaba e escolher e outro, em vez das play-lists e outras modernices do Spotify que escolhem tudo por nós. Eu ainda gosto de escolher o que é que vou ouvir, enquanto leio um escritor de eleição e vou pensando que petisco me apetece preparar para o almoço. A vida no campo é isto, estar quieto por uns tempos, a carregar baterias, fazer um reset ao sistema, adormecer sem stress e acordar sem ansiedade, viver sempre pressa e saborear cada momento. Vou ficando enquanto posso, já que este ano o meu jacarandá não deu flores. As árvores estão malucas, penso eu, enquanto me dedico à confeção de uma mousse de chocolate. Malucas, ou tristes. Às vezes é a mesma coisa. Outras vezes é só cansaço, misturado com a memórias de tudo o que poderia ter sido e não foi. Quem sabe, para o ano, a minha arvorezinha floresce duas vezes.

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