Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Cães, gatos e alicates

Umas das últimas coisas que aprendemos na vida é a dizer não. Não quero que me ignores. Não quero que te atrases. Não quero que me respondas torto. Não quero que tenhas medo de mim. Não quero que peças aquilo que não te peço dar. Não quero ver-te hoje e não quero ter de te dizer porquê.
15 de setembro de 2017 às 07:00
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Cães, gatos e alicates

Os dias de escrita são todos iguais: levantar cedo, escancarar as janelas, ir à cozinha buscar uma torrada e um café com leite de aveia e voltar para o computador. No pátio das traseiras reina o silêncio. Às vezes há obras, barulho de máquinas, homens que falam alto entre si em idiomas eslavos, ou brasileiros a cantarolar melodias de amor. O ruído da cidade chega esbatido, graças ao quadrado formado pelos prédios. Falta um jardim no pátio. Em vez isso, alguém construiu um armazém gigante e horrível com um telhado que está velho e feio.

Podes conhecer os teus vizinhos só pela roupa que penduram no estendal. Parece sempre velha, feia e enrugada, como o telhado. Na janela da frente vejo um gato preto e branco. Passa as manhãs no parapeito a apanhar sol, silencioso e estático como uma figura de loiça. Este não tem de escrever livros.

Se fosse um animal, talvez fosse um gato, cão é que nem pensar. Os cães correm, ladram, são carentes a patetas e precisam que alguém os leve à rua. Os cães metem-se debaixo dos teus pés, dentro da tua cama e na tua vida. Os gatos são mais independentes. São fleumáticos, limpos e não precisam de trela.  

Na janela de cima, todos os dias de manhã, está um senhor de cabelo comprido e porte aristocrático-decadente a fumar o seu cigarro. Detesto cigarros. Já pus um namorado a andar porque fumava muito. Bem, não foi só por causa disso, tinha outros defeitos que com o tempo se tornaram insuportáveis, mas esqueci-os. O cheiro impregnado dos cigarros na pele e no hálito, esse nunca esqueces.

Há muitas escolhas na vida que são baseadas não naquilo que queres, mas naquilo que sabes que já não queres. Se fosse um animal, não queria ser um cão, se tivesse um namorado, não podia ser fumador. Nem mentiroso. Nem omisso. Nem ausente. Nem com pontas soltas. Nem ciumento. Nem depressivo. Nem casado com outra. Simples. Umas das últimas coisas que aprendemos na vida é a dizer não. Não quero que me ignores. Não quero que te atrases. Não quero que me respondas torto. Não quero que tenhas medo de mim. Não quero que peças aquilo que não te peço dar. Não quero ver-te hoje e não quero ter de te dizer porquê. Posso estar cansada, com dores de barriga, sem ter de dar explicações.

Se tenho saudades tuas? Claro que tenho. Tenho saudades de tudo o que senti. Mas não tenho saudades dos teus silêncios, da tua distância, de teres medo de mim quando sempre quis o melhor do mundo para ti. Não tenho saudades da solidão imposta, do silêncio fora das horas de escrita, da distância marcada como uma providência cautelar que dita: não pode enviar mais de cinco mensagens por dia ao seu amor, não pode marcar encontros mais do que duas vezes por semana, não pode contar nem com um fim-de-semana por ano, não pode, não deve, não isto, não aquilo.

Fartei-me de relações com restrições. Não escrevi regras. Regras são outra coisa. O mundo governa-se de leis, de regras e da marcação de limites. Restrições são regras impostas pelo outro como palavra de lei. Ou aceitas ou desistes. E eu desisti de viver um amor sem liberdade, sem entrega, porque sem entrega nem sequer é amor, é uma merda qualquer que nem sequer é parecida.

O amor já foi outra coisa. Tu vinhas sempre feliz e sempre que podias. As refeições eram a dois. Dormíamos na mesma cama e partilhámos os mesmos sonhos. Quando os ventos mudaram, não soube fechar-te a porta. Voltaste para o mundo e eu fiquei desde lado do muro. Cercada pelo pátio, pela escrita, pelos sonhos perdidos, pelas saudades, pelo medo e ter perder quando já tinha perdido tudo. Fiquei refém de um nada muito estúpido que se chama teimosia.

O gato já não está no parapeito. Não deve ter caído, porque o pátio mantém o seu silêncio rotineiro. No Rio de Janeiro existem milhares de varandas fechadas com rede. Como há muita passarada, os gatos tendem a atirar-se de grandes alturas, entusiasmados com as visões voadoras. É o instinto que os mata.

Já instalei uma redoma de rede em volta do meu coração. Precisei de vários metros, ao que parece o seu perímetro é bastante grande. Estar quieta também é uma ação, por isso aguardo pacientemente um rapaz com uma caixa de ferramentas que saiba usar um alicate. Talvez esse consiga abraçar-me sem desparecer depois, como o gato da vizinha.

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