Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Carrinhos de choque

Perante o ambiente tenso, decidi imediatamente começar a fazer o que sei melhor: dizer disparates para desviar a conversa. Entrei a pés juntos com perguntas disparadas como balas em todas as direções para provocar a confusão e semear o caos. A minha irmã percebeu imediatamente a minha manobra, seguida pelo meu irmão que alinhou de imediato na tropelia.
23 de março de 2018 às 10:54
...
Carrinhos de choque

No dia do Pai os manos e eu fomos almoçar todos com ele, sem sequer combinarmos. Como não almoçar com o nosso Pai nesse dia? Tal coisa era impensável, a não ser que algum de nós estivesse fora, o que não aconteceu.

Como ando sempre um bocadinho atrasada com as horas e com a vida, fui a última a chegar. Além dos manos, estavam sentadas à mesa duas adoráveis criaturas pertencentes à terceira geração da família, cada uma mais querida do que a outra, venha a fada Oriana e escolha qual a mais bonita e meiguinha, porque eu não sou capaz.

Assim que cheguei, apercebi-me pelo tom da conversa que o assunto estava a caminhar para o sério. Provavelmente nem sequer era importante, mas o nosso pai de vez em quando ainda gosta de dar solenidade a alguns assuntos que lhe são particularmente chegados; regras de educação e de bons modos, valores morais, comentários despropositados ou barulhos desnecessários, por exemplo.

O meu pai é o maior amante de música que conheço, a sua discoteca de vinil é um primor e de CD’s é uma loucura, talvez por isso deteste tanto o ruído. Nisso somos parecidos. Se passar muito tempo num lugar com muito barulho, começo a enjoar, primeiro levemente e depois profundamente, até não me restar outro caminho senão a da fuga silenciosa seguida de regresso a casa com a maior brevidade possível. Como todos os escritores, sou viciada em silêncio, preciso de pelo menos duas horas desse paliativo por dia, e mesmo assim, parece que nunca é suficiente. O meu pai não é escritor, embora escreva com grande clareza e bastante sensibilidade e nisso também somos parecidos, e somos em tantas que nem ele nem eu sabemos quantas, porque ainda hoje conseguimos descobrir algumas novas.

Voltando ao supracitado encontro de manos na residência dos progenitores, perante o ambiente tenso, decidi imediatamente começar a fazer o que sei melhor: dizer disparates para desviar a conversa. Entrei a pés juntos com perguntas disparadas como balas em todas as direções para provocar a confusão e semear o caos. A minha irmã percebeu imediatamente a minha manobra, seguida pelo meu irmão que alinhou de imediato na tropelia. As miúdas entraram no espírito e de um momento para o outro o meu pai ficou sem contexto para continuar o seu discurso.

Pouco tempo depois, sem razão aparente, iniciou uma espécie de manobra acrobática na sua cadeira de rodas. Primeiro virou-a em ângulo reto em relação à mesa e depois mostrou a intenção de dar a volta por trás da cabeceira onde eu estava sentada. Ora deu-se o caso de estar atrás das minha costas, entre o meu lugar e a janela, um aquecedor a óleo com algum porte no qual o veículo de duas rodas iria embater, portanto aquilo não ia correr bem. E, mais uma vez, sem pensar, como tantas vezes me acontece, perguntei com um grande sorriso:

- Onde é que o pai quer ir com o seu carrinho de choque?  

Os risos contidos começaram explodir suavemente em pequenas ondas entre os meus irmãos e as minhas sobrinhas, lembrando aqueles gloriosos tempos em que estávamos os três à mesa quando éramos crianças. Um dizia um disparate qualquer, o outro começava a rir, o terceiro apanhava o mesmo comboio e aquilo ia em crescendo, sem nunca ter fim. Era sempre muito contagioso e incontrolável, nunca sabíamos quando íamos conseguir parar. De repente o tempo recuou quatro décadas. Estávamos outra vez com, 12, 10 e 7 anos um palhaço de serviço com dois cúmplices ou assistentes.

É uma sorte ter uma família assim e quem não tem, deve ter pena. Não sei se pode sofrer de coisas que nunca aconteceram, mas acredito que seja possível. Passada a crise de riso, os meus irmãos ainda murmuravam entre dentes, carrinho de choque, carrinho de choque, e eu via o meu pai a sorrir da piada, derrotado pelo seu palhaço de estimação. Estou em crer que ganhou o dia, e nós também.

Mais notícias de Pessoas Como Nós

A menina Clarinha e eu

A menina Clarinha e eu

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor.
Mergulhar no futuro

Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
Com cinco letras apenas

Com cinco letras apenas

É engraçado como as palavras mais belas e mais importantes têm três, quatro ou cinco letras. Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, filho, paz, saúde, sonho, amor, fado. Beijo, abraço, toque, sim, não, já, agora, calma, vem, fica.
Claras em Castelo

Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!
;