Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.
10 de abril de 2020 às 14:47
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Claras em Castelo

Cá em casa damos nomes aos eletrodomésticos. Tudo começou quando, depois de quase três anos sem forno, por causa da pandemia e por causa dos dotes culinários do Zé me decidi a comprar um forno da marca Meireles. Robusto e analógico, sem luzinhas nem enfeites, três botões, um para contar minutos, o outro para escolher as opções e o terceiro para regular a temperatura. 

- Meireles é nome de funcionário público - , comentou o Zé enquanto retirava o salmão do tempero para lhe dar uma entalada. Tinha-o temperado de manhã, só com umas laranjas esborrachadas, e depois reservado, que é aquele termo da culinária quando se deixa um alimento de lado até à hora de ir para o seu destino fatal, frigideira neste caso. 

- Então se o forno tem nome, o que fazer com os outros eletrodomésticos da cozinha? – perguntei eu, enquanto cortava batatinhas nova ao meio, as temperava com azeite, manteiga, flor de sal e orégãos, tarefa de grau de dificuldade zero nas artes da culinária.

- É tratar todos por igual, para não se sentirem negligenciados- respondeu o Zé que tem sempre resposta para tudo, quase sempre com muita graça.

E foi assim que o frigorifico passou a ser o Pacheco, o micro-ondas o Fonseca, a máquina de lavar roupa a Adelaide, e a da loiça a menina Isilda. Ainda falta batizar a vassoura, o aspirador e o ferro de engomar. 

É impressionante como a vida muda quase de um dia para o outro. Com a pandemia, descobri que sei arrumar gavetas como se trabalhasse numa loja de lingerie, que engomo camisas enquanto o diabo esfrega o olho e que, graças ao Meireles, faço uns bolos de lamber os dedos e de chorar por mais. Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. O que me custa é ver que morrerem todos os dias milhares de pessoas no mundo. 

Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo e pelas circunstâncias, fazem planos ambiciosos para se tornarem em pessoas melhores e até acreditam neles, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam. Eu que o diga, que acordo feliz dia sim dia não, e o Zé, que me conhece bem, sabe que um dia menos feliz acaba quando adormeço, no dia seguinte já fui a zeros e acordo animada, cheia de planos possíveis para aguentar a armadilha doméstica cultivando o charme do quotidiano. 

A realidade mudou e com ela as minhas ambições também mudaram. Dantes, sonhava com férias em Ibiza, agora perco-me em delírios de desejo por uma batedeira porque a minha avariou e não tenho força de braços para bater as claras em castelo até ficarem naquele ponto em que não caem da taça mesmo que a vire de pernas para o ar durante vinte segundos.

E a vida vai seguindo sem sair do mesmo lugar, a Adelaide dá voltas ao seu tambor, enquanto a menina Isilda trabalha pelo menos uma vez por dia, o Fonseca qualquer dia rebenta com tanto uso ainda não demos nomes à vassoura, ao aspirador e ao ferro de engomar. 

Quando a quarentena enfim terminar e os nossos amigos nos vierem visitar, já estou a imaginar a cena, tudo na cozinha à conversa e eu digo:

- Ó Zé, vai ali ao Pacheco buscar os bifes, mete o arroz a aquecer no Fonseca, enquanto o despejo a menina Isilda. 

Os nossos amigos vão pensar que enlouquecemos, mas nunca estivemos tão lúcidos. Só me falta mesmo uma batedeira para ter claras em castelo sem grande cansaço e fazer bolo de laranja, bolos de cenoura, bolo de chocolate. Tudo com muita alegria e amor, que é para isso que cá andamos.

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ESTRELA D'ALVA* 14.04.2020

Margarida Rebelo Pinto,
Neste tempo que já nada deixa de ser tempo sofrido , mas ao mesmo tempo, fruto da nossa resistência emocional, aqui vai uma sugestão para o nome da vassoura, ao mesmo tempo que nos transporta à infância, de eternas e límpidas lembranças onde Walt Disney, era rei e senhor. Penso que muito a preceito: Magda Patalógica.

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