Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Conversas de ginásio

A maioria das pessoas não consegue evitar viver como se tivesse duas vidas, uma é a maquete, a outra, a versão finalizada, e depois há uma série de versões pelo meio.
30 de novembro de 2018 às 07:00
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Conversas de ginásio
- Quem és tu afinal? - perguntou a rapariga no corredor do ginásio ao rapaz dos calções pretos.

Estava despenteada, de toalha enrolada na mão e o lápis dos olhos vagamente borrado. Não devia ter mais de 40 anos. Ou talvez tivesse passado há pouco a barreira dos 30. A testa lisa já recebera pequenas doses de botox, as pálpebras pesavam-lhe por causa das pestanas postiças e o lábio superior possuía um desenho arrebitado e suspeito, a denunciar a mão de um cirurgião plástico. O mesmo se podia adivinhar do peito, redondo e cheio, ou talvez não. Talvez fosse tudo genuíno, de origem, sem revisões nem apuramentos. De qualquer forma nada disso saltava tanto à vista quanto os olhos verdes que faiscavam de raiva, fixando o boxeur amador como uma pantera depois de imobilizar a presa, no exacto momento que antecede o golpe final.

O boxeur sorria, num misto de timidez e de aflição. Passei ao largo da conversa, tão ao largo quanto me era permitido,  já que o corredor não é assim tão grande. Consegui não atrasar o passo, embora fosse essa a minha vontade, acabando por me posicionar na fila da caixa registadora do bar para poder continuar a sentir aquele momento.

- Porque é que não respondes às minhas mensagens? Estás com cataratas ? Ou nunca tiras as luvas de box?
- Não é nada disso Maria, exageraras sempre em tudo, estou atulhado de trabalho, chatices, reuniões...
- E portanto não consegues responder a nenhuma mensagem, é isso? Nem minha nem de ninguém.
Ele encolheu os ombros, sem saber o que responder.Sentindo-se sem defesa, desviou o assunto.
-Mas tu agora também vens ao meu ginásio?
-O ginásio é teu ??? Quando é que o compraste? Foram só umas quotas, ou é propriedade plena?
Os olhos dela pareciam duas bolas de fogo, meteoritos de raiva a cruzar o firmamento de uma paixão imensa em tudo: desejo e medo, sonho e pesadelo, luz e sombra. Os seus dedos reviravam a toalha que se transformara num rolo torcido. Imaginei o seu coração a bater tão forte no peito que se tornava visível por debaixo do top justo cor de laranja, a combinar com os ténis fluorescentes.
-Não te zangues, não foi isso que quis dizer, é uma forma de expressão.
-Mudei de casa. Este é o ginásio mais próximo. O que é que estavas à espera que fizesse? Que não viesse para cá porque também cá andas?  Se não me queres encontrar, muda tu, já que não consegues mudar mais nada.

Ele tentou tocar -lhe no braço, queria acalma-la, ou talvez fosse a única forma de lhe pedir desculpa, mas ela deu meio passo atrás, apenas meio passo, o suficiente para ele se sentir  rejeitado.
-Maria, por favor não me faças isto..
-Isto o quê? Não gostas de te sentir rejeitado ? Então imagina como me senti todas as vezes que não me respondeste, que me ignoraste como se eu não valesse nada nem fosse minguem. Consegues?

Ele abanou a cabeça. Ela também. Tive a impressão que se um deles tivesse cedido ao outro, um abraço apertado teria resolvido aquele arrufo. Tratava -se apenas de mais uma história de amor mal resolvida. Qual dos dois iria conseguir quebrar a zanga e resolver aquele imbróglio amoroso?

A maioria das pessoas não consegue evitar viver como se tivesse duas vidas, uma é a maquete, a outra, a versão finalizada, e depois há uma série de versões pelo meio. Aquele boxeur estava certamente numa das suas piores versões. A rapariga encolheu os ombros outro vez, sacudiu a cabeça, roubou-lhe uma das luvas e afastou -se a passos largos. Ele ficou parado como uma estátua de museu que alguém foi levantar ao acervo e deixou inadvertidamente estacionada no corredor, na pausa para o almoço, à espera de um lugar na sala das esculturas helénicas. Era um homem bonito, mas de repente parecia apenas uma sombra perdida nas suas circunstâncias.

Nunca mais o vi no ginásio. A Maria faz a mesma aulas de localizada que eu todas as segundas, quartas e sextas. Continua linda e sorri quando diz bom dia.

Os seus olhos já não brilham.

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