Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Coração à porta

Levantei os olhos para fixar na memória aquele momento para sempre.
03 de maio de 2019 às 10:26
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Coração à porta
Foto: D.R.

A condição humana não era completa sem a inevitável presença da ironia que tantas vezes nos surpreende e outras  acaba por nos transmitir um estranho,  porém letal sentido de justiça. Isto é quando não nos desconsola pela crueldade que acarreta. Basta verificar ao longo da história da humanidade quantas escritores morreram cegos, Borges e Camilo, por exemplo, quantos músicos ensurdeceram, Beethoven é talvez o caso mais conhecido, ou cantores que padecerem de cancro na garganta, como o grande Nat King Cole com a sua voz de barítono aveludado. O destino marca a hora, o minuto, o segundo. Acordamos sempre sem saber se chegamos a ver a luz do dia seguinte e, no entanto, estamos programados para nunca pensar nisso, o que é das maiores provas de inteligência que o cérebro pode demonstrar, pois se soubéssemos de antemão a hora da nossa morte, nem Deus conseguiria prever os disparates e as enormidades que seriam cometidas em nome da urgência, do desespero e do sentido da finitude da vida.

Decidi mudar de casa porque não conseguia mudar de vida. Voltei a um lugar onde fora tão feliz como infeliz, mas a ideia de mudança sempre me salvou ao longo da vida, pressenti que usar a mesma receita conduziria a resultados interessantes, já sempre assim foi.

Meti a minha vida em dois camiões de mudanças. A quantidade e a diversidade de volumes pareceu-excessiva e jurei a mim mesma fazer uma sangria depois do recheio ter chegado ao destino, o que acabou por acontecer com a ajuda de uma amiga, e em menos de uma semana a minha nova morada que já fora antiga, ficou pronta. Corre-me no sangue o espírito de fada do lar, não descanso enquanto não está tudo limpo, arrumado, perfeito, como se esperasse a qualquer momento a visita de um fotógrafo de uma revista de decoração. Existe um certo alheamento no cumprimento das tarefas domésticas que me desliga o cérebro, a repetição  torna-as ao mesmo tempo mecânicas e mágicas e fazem/me pensar que existem poucas coisas melhores do que conseguir sossegar o pensamento e mergulhar na caixa do nada durante alguns instantes. Manter a casa em ordem ajuda a arrumar a vida e a por o coração em ordem, da mesma maneira que viver no caos doméstico não ajuda em nada a manter a vida nos carris: perdem-se os óculos, os papéis e a paciência muito mais depressa daquilo quereria desejável.

É verdade que também mudei porque sabia que iria sentir-me em casa, e depois de um ano de aqui estar, já mal recordo a outra casa onde vivi sete anos. Parece que afinal nunca saí deste jardim, desta sala com lareira e deste quarto imenso onde o céu e o mar se tocam na linha do horizonte. 

A única coisa que me faltava neste paraíso escolhido era um sorriso, um abraço pela manhã, uma respiração feliz, o calor de uma mão na cintura a embalar-me o sono e os sonhos. Mas como não há noite que não acabe, quando te vi há dias empurrar suavemente o portão, enquanto eu lia sentada nas escadas da entrada e entrar devagar na meu mundo e na minha vida, levantei os olhos para fixar na memória aquele momento para sempre. Não me levantei logo, queria medir os teus passos certos até mim, só depois fechei o livro e te dei um abraço. 

Se continuares a empurrar o portão devagar e trouxeres sempre esse sorriso trocista que me responde com ironia às ironias que te lanço, talvez chegues ao meu coração. Estás mesmo à porta, acredita. Camilo matou-se, Beethoven morreu só, dizem que o destino dos génios é acabar a vida em solidão, mas eu não sou nenhum génio, sou só uma miúda que gosta de arranjar flores e de esperar à soleira da porta que a paz enfim se anuncie num abraço ao nosso, tão calmo e seguro como o teu olhar, quando descansas do mundo ao meu lado, a ver um filme antigo e a rir comigo das voltas que a vida dá. Estás perto, muito perto, e agora é apenas isso que interessa.  

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