Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Coração de girafa

Hoje não partilho o quarto com ninguém, o coração fortaleceu-se com uma peça nova, medicação adequada e exercício regular.
07 de dezembro de 2018 às 19:23
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Coração de girafa
Foto: D.R.

Girafa. Foi assim que o Rodrigo voltou a chamar-me, entre dois chás de cidreira, numa dessas esplanadas da moda em Lisboa. O frio polar, que vai e vem sem aviso, estava de greve nessa tarde, por isso ficámos por ali um par de horas a saborear a conversa solta e descomprometida que só os amigos de longa data podem dar-se ao luxo de tecer. Ele falava do seu último trabalho como ator numa novela. Fazia de gay. Para ele era divertido, porque quando nos conhecemos há quinze anos, saía todas as noites com uma miúda diferente. Os períodos de ringue, como ele lhe chamava, foram intercalados com paixões sérias. Durante essas fases apresentava as namoradas à família e à imprensa, mas sempre intui que não eram para durar. E como quase sempre acontece, a minha intuição estava certa.

Há muito tempo que não nos víamos, a alcunha carinhosa trouxe-me memórias antigas, quando numa noite de Verão o Rodrigo tentou roubar-me um beijo. Deixei escapar o primeiro, mas depois empurrei-o com firmeza e disse:

- Tu varres tudo, não quero ser mais uma.

O Rodrigo sorriu, pensou durante alguns segundos e respondeu:

- Tens razão, Girafa loira.

E assim começou uma bela amizade que o tempo nunca apagou.

-  Chamas-me girafa porque tenho o pescoço muito comprido, não é? – perguntei enquanto mordiscava meia torrada aparada.

- Não, porque tens o maior coração que conheço. As girafas têm um coração enorme porque precisam. Se assim não fosse, com aquele pescoço, como chegaria o sangue ao cérebro?

Nunca tinha pensado nisso. No final do encontro demos um abraço e vim para casa a guiar devagar, na faixa dos lentos da A5, a ouvir John Mayer e a pensar naquilo. Assim que cheguei, acendi a lareira, meti uma pizza no forno e antes de retomar a série da semana, fui aprender mais sobre as girafas. Por causa do seu pescoço comprido e rígido, o seu sistema vascular é o com maior pressão sanguina do reino animal.  O coração tem dois orifícios: um que bombeia sangue para os pulmões e outro que alimenta o cérebro com o outro líquido da vida. Quando a girafa tem de beber água, a pressão sanguínea aumenta de forma brutal e só não a mata porque o cérebro possui uma quantidade imensa de vasos capilares que distribuem o sangue e uma artéria que devolve ao coração o sangue bombeado. Foi o que aprendi sobre girafas. Sempre admirei o seu porte majestoso sem ser altivo, a sua expressão plácida, o seu pelo estampado num padrão original e criativo.

Quando era miúda e visitava o Jardim Zoológico, elefantes e girafas eram os meus preferidos, eles porque tinham ao olhar mais meigo e inteligente que já conheci, elas porque sentia que fôramos irmãs numa outra vida. Apetecia-me conversar aqueles seres magníficos, dizer-lhes que era solidária com o cativeiro al qual estavam condenados, pois também eu era obrigada a partilhar o quarto com a minha irmã, a ir todos os dias para o colégio com uma farda escura, feia e fria, e não podia correr nem saltar como as outras crianças por causa de um tal sopro no coração. Como as crianças possuem poderes telepáticos que os adultos desconhecem, acredito que as girafas e os elefantes conseguiam ler o meu pensamento.

Hoje não partilho o quarto com ninguém e o coração fortaleceu-se com uma peça nova, medicação adequada e exercício regular. Aprendi a meditar para acalmar o corpo e a mente, oiço os ensinamentos do Buda que me ajuda a aceitar aquilo que não muda, apanho aviões para o lado de baixo do Equador com a mesma leveza de quem vai à Mexicana tomar o pequeno-almoço, mas ainda sou aquele girafa com o coração muito maior do que a cabeça que vigia o mundo do alto dos seus sonhos.

Lá ao fundo, rente à linha do horizonte, desenha-se ainda a tua sombra, despenteada e silenciosa como tu, apesar do nevoeiro que envolve a memória. Talvez no meu regresso possamos enfim dar aquele abraço eterno de dois corações apartados que se querem bem, apesar dos desencontros, apesar das diferenças, apesar de tudo.

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