Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Coração escondido

O amor pode ter graus, mas não tem dias.
17 de janeiro de 2020 às 22:22
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Coração escondido
Foto: D.R.

Foram precisas oito horas para atravessar a cadeia de montanhas da Sierra Madre del Sur do estado de Oaxaca no México, o mais montanhoso e indígena dos estados do país que popularizou os boleros e o guacamole. 

Podíamos ter apanhado um avião, teria sido muito mais rápido, mas muito menos interessante, pois é sabido que a única maneira de conhecer um país é viajar de carro pelo seu interior. Apanhámos um shuttle na cidade de Oaxaca no qual éramos as únicas turistas. Durante a travessia não ouvimos uma palavra dos outros passageiros que incluíam um pai e um filho já adulto, um casal de apaixonados e um família com duas crianças. O condutor era afoito e despachado, perito em ultrapassagens de rally e imprevisível nas paragens que podiam incluir ou não o descanso dos passageiros. Expressava-se numa algaraviada quase indecifrável de um dialeto cantado, mas compensava a opacidade da variante linguística com o olhar arguto e um sorriso atrevido ao qual faltavam meia dúzia de dentes, ausência distribuída de forma aleatória. 

As montanhas são de uma beleza majestosa e serena, em certos pontos ultrapassam q altitude de 3.000 metros. A estrada avança, subindo como uma serpente teimosa. Nas partes em que está arranjada, Jésus acelera, mas é sol de pouca dura. Poucos quilómetros à frente, é obrigado a abrandar por causa dos trabalhos na estrada, dos buracos no asfalto e das lombas. 

Eu vou enrolada numa écharpe de Verão por causa de uma gripe que me apanhou no ar, quando o avião cruzava o Atlântico, que me deixou três dias a arder de febre numa hacienda transformada em hotel. Nunca tenho medo de viajar, na verdade nunca tenho medo de nada, só de um dia não poder mais apanhar um avião para um destino desconhecido.

Durante todo o trajeto, sem tréguas, Jésus vai fazendo uma seleção musical na rádio que inclui músicas de amor. Parece que nada mais interessa aos mexicanos do que o amor, já que é o tema de todos os géneros musicais. E com o amor vem o desgosto, a traição, o abandono, o coração partido, o ciúme, a desilusão, a loucura, o sofrimento e a claro, a culpa. As palavras mais repetidas que escutei durante as oito horas de travessia montanhosa foram culpable e te extraño, que é a expressão da língua castelhana para as nossas saudades. 

Para quem pensa que, por sofrer de amor, está só no mundo, recomendo uma estadia no México porque não conheci até à data povo mais terno e romântico do que este. No entanto, recomendo alguma precaução, pois o México é um país dado a crimes passionais em todas as classes sociais. 

Quando o amor mata ainda é amor? Não. Quando o amor deixa de ser dar para ter, deixa de ser aceitar para castigar, deixa de ser paz para ser guerra, já não é amor. Amor é querer sempre, sem exceções, o melhor do mundo para aqueles que amamos, ainda que para tal se façam cedências e sacrifícios. Amor é o que sentimos pelos nossos filhos. É um sentimento nobre, absoluto e não negociável. Pode ter graus, mas não tem dias. Ou se sente ou não se sente, ou corre no sangue, ou não corre. 

No final da travessia, vi o sol como uma bola de fogo por entre os cumes, vi nuvens que aconchegavam os picos, vi o mundo de um lugar tão belo e tranquilo que me senti em paz. E quando cheguei ao destino, à praia de Puerto Escondido, agradeci ao Universo por me ter dado esta alma de viajante sem medo do desconhecido. 

Este é um lugar  tão bom para esconder o coração como outro qualquer, talvez apenas mais tranquilo. Quando não se sabe como arrumar o coração, mais vale escondê-lo como quem guarda um tesouro. 

Quem sabe, um dia,  outro viajante sem medo o descubra de novo, guiado pela intuição e pela confiança que são as bússolas de quem acredita no amor verdadeiro, no amor que dá sem pensar em receber e se entrega com a alegria de um abraço apertado.

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