Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

De Óbidos à Lua

Tenho a mania de ouvir as conversas de estranhos, acredito que o meu radar de escritora pode sempre apanhar um pormenor interessante, uma expressão inesquecível, ou apenas uma fatia de vida, uma amostra da condição humana, um "momento Kodak", para mais tarde recordar.
30 de junho de 2017 às 07:00
...
De Óbidos à Lua

- Nunca me levaste a Óbidos – queixava-se a mulher sentada num banco à beira-rio.

Eu andava de passeata a estrear a minha Luisinha. A Luisinha é uma bicicleta linda que recebi de presente de aniversário. Foi entregue na minha casa, enfeitada com balões. A Luísa é elegante e leve, verde-clarinha com o selim em pele, muto feminina. Só lhe falta um cesto à frente e luzes, caso me dê para passear nela à noite, ocorrência pouco provável na minha existência pacata.

- Levei sim, Arminda, tu é que já não te lembras.

- Não fui eu, estúpido, foi a tua mulher.

- A Elsa já morreu faz tempo, porque te pões sempre a falar dela? Devem-se respeitar os mortos.

- Porque foi com ela que foste a Óbidos. Comigo foste à Nazaré.

O estúpido calou-se suspirou e disse:

- Tens razão. Mas olha que é perto.

Eu tinha desmontado do selim da Lurdinhas com o pretexto de apertar os atacadores. Tenho a mania de ouvir as conversas de estranhos, acredito que o meu radar de escritora pode sempre apanhar um pormenor interessante, uma expressão inesquecível, ou apenas uma fatia de vida, uma amostra da condição humana, um momento Kodak, para mais tarde recordar, como cantava uma menina de voz afinada no anúncio da televisão quando eu era pequena e as fotografias eram reveladas.

Comprava-se o rolo, inseria-se na máquina, tiravam-se poucas fotografias, levava-se a revelar, esperava-se três dias e despois lá vinham elas por ordem, dentro de um envelope às cores, com os negativos protegidos em tirinhas de plástico muito finas.

Os negativos eram numerados e as tiras eram sempre maiores do que os envelopes, lembro-me de pensar naquilo, porque é que os negativos sobravam sempre no espaço e no tempo, já que as fotos impressas com os anos perdem a côr, mas os negativos nunca perdem nada, a não ser que se percam.

O casal, que já devia ter passe para a terceira idade, percebeu que estava a ser observado e a Arminda preguntou:

- A menina precisa de alguma coisa?

Abanei a cabeça e voltei a pedalar com a Luisinha, o sol a pôr-se nas minhas costas, a ponte à minha frente, a onda branca do Maat à esquerda, avançando na minha direção à medida que me aproximava.

Também nunca me levaste a Óbidos, embora em bom rigor fosse mais interessante ser eu a levar-te, porque conheço a vila como a palma da minha mão. Não passava férias na Nazaré, mas em São Martinho do Porto, a seis quilómetros da vila que os reis davam de presente às mulheres com a mesma naturalidade com que recebi echarpes, bombons, livros e uma bicicleta com balões.

Não é só quando as relações acabam que ficamos a remoer tudo o que não fizemos, o que não construímos e o que não conseguimos. Durante a relação também é assim, a não ser que a paixão seja o capitão do barco e este rompa as ondas tão depressa como se voasse, sem medo de nada, certo e seguro da sua viagem, da sua direção, do seu destino.

Salvo os amores abençoadas pela deusa da paz que se chama Certeza, andamos todos a ver se não trocamos o dito pelo não dito, a carência pela compaixão, o desejo por amor, que é como quem diz, Óbidos pela Nazaré, porque apesar de serem perto, não têm nada a ver.

Pensava que já não gostava de ti, há meses que não te vejo, mas sempre que trocamos piadas em forma de mensagens, ris-te das minhas parvoíces e então penso que mais vale pedalar pela vida com a minha Luisinha de coração leve e cabelos ao vento do que embirrar contigo porque nunca me levaste a Óbidos.

Um dia destes levas-me outra vez à lua e o assunto fica resolvido. A lua é só nossa, apenas os astronautas de grande calibre se atrevem a visita-la. Mas nós vamos sempre que nos apetece, somos pessoas com sorte.

Mais notícias de Pessoas Como Nós

A menina Clarinha e eu

A menina Clarinha e eu

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor.
Mergulhar no futuro

Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
Com cinco letras apenas

Com cinco letras apenas

É engraçado como as palavras mais belas e mais importantes têm três, quatro ou cinco letras. Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, filho, paz, saúde, sonho, amor, fado. Beijo, abraço, toque, sim, não, já, agora, calma, vem, fica.
Claras em Castelo

Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!
;