Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Demónios e dominós

Há mais vida, para lá do bem e do mal, dos sonhos e pesadelos, de quem escolhemos para a nossa vida e de quem se atravessa sem aviso.
05 de julho de 2019 às 07:00
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Demónios e dominós

O problema das pessoas instáveis é que parece estar sempre tudo bem, até ao momento em que acontece alguma coisa. Basta uma peça sair do lugar para todas as peças de dominó que se encontravam alinhadas depois de tanto esforço , empenho e disciplina, comecem a tombar umas atrás das outras, até à derrocada final. E esse dia chega invariavelmente. 

O Grande Dia do Dominó, como passei mais tarde a referir-me cada vez que contava a alguém razões da nossa separação, foi numa sexta-feira. O Alexandre saiu para jantar com os amigos e só regressou na terça de manhã. Foi o princípio do fim. Tanta loucura não vinha do álcool, mas da cocaína. O pai dos meus filhos era agarrado e eu tinha de os salvar daquilo. 

A tipa com que mais tarde viveu era uma drogada como ele. Chamava-se Ana Cristina, era magra e tinha os olhos escuros e encovados. Lembro-me que era alta, com boa figura. Fora uma modelo com algum sucesso nos anos 90, tentou a carreira de atriz sem sucesso e acabou como comercial na seguradora onde se cruzou com o Alexandre. Contaram-me anos mais tarde que continuava a cheirar e que várias vezes se prostituíra para conseguir umas gramas para o vício. Quando soube destes pormenores sórdidos, o Alexandre já estava fora deste mundo. Nem todos sobrevivem à loucura e a morte nunca avisa quem leva primeiro, é traiçoeira e aleatória. A única coisa com a qual podemos contar é que pode não acertar à primeira, mas nunca falha. 

A morte nunca falha e as pessoas não mudam. Às vezes melhoram um bocadinho, mas quase sempre pioram. Podem até transformar-se, o que é diferente, mas mudarem, isso não existe. E ainda que a vida as obrigue a alterações de conduta por razões extraordinárias, voltarão ao seu formato inicial assim que as coisas estabilizarem. O Alexandre nunca foi bom de assoar, a minha paixão por ele é que me cegou durante algum tempo. Mesmo quando estávamos juntos, o nosso dia a dia era mau, sem segurança nem juízo. Eu tinha uma vida de merda com o Alexandre, a separação era inevitável.

Depois de quatro longos dias de ausência, percebi que tinha de mudar de vida.  Como o andar onde vivíamos na Avenida de Roma era emprestado pela minha sogra, não tive outro remédio senão sair com os miúdos, com os meus livros e discos, e voltar para casa dos meus pais até conseguir organizar-me. Quando vi o anúncio da casa em Caxias, quase em ruínas e com vista frontal de mar, convenci o meu pai ajudar-me e concretizei o meu sonho. Foi logo a seguir à mudança que Alexandre se espetou no túnel e deixou os miúdos órfãos. Eu tinha 33 anos. 

Quando alguém morre de repente, é inevitável uma pessoa sentir-se culpada. Se ele não estivesse àquela hora a passar por aquele túnel, são não tivesse chovido naquela manhã e o asfalto não estivesse como manteiga, passa-nos tudo pela cabeça. Porém, com o tempo, uma pessoa aceita o inevitável e acaba por encaixar que as asneiras que fez são uma coisa e que o imponderável é outra. Se cá nevasse, fazia-se cá ski, como cantava uma banda rock dos anos 80. Mesmo que a nossa vida tivesse sido diferente, nada me garante que as coisas teriam sido diferentes. Na verdade, eu não fiquei em casa pelos miúdos, eu separei-me para dar aos meus filhos uma vida mais estável, não queria que crescessem com um drogado em casa. 

Ainda hoje, quase vinte anos depois, o Alexandre me aparece em sonhos, a reclamar de tudo, zangado, a discutir comigo, como se ainda estivesse vivo. Ou é o meu subconsciente que ainda não processou a culpa de um acaso que me ultrapassa, ou o Diabo existe mesmo. Seja como for nenhum dos miúdos se mete em asneiras, e só por isso sinto que a minha missão na terra já se cumpriu. E embora ainda dance com o Diabo em sonhos, quando acordo abro a janela e mando todos os fantasmas embora. 

Há mais vida, para lá do bem e do mal, dos sonhos e pesadelos, de quem escolhemos para a nossa vida e de quem se atravessa sem aviso. Há sempre mais vida, depois de todos os dominós caírem. Basta juntar as peças e arrumá-las na caixa do perdão e do esquecimento. Dá trabalho, mas acaba por ser mais fácil do que ficar a remoer em tudo o que não conseguimos mudar. Esquecer nunca é fácil. Podemos perdoar tudo sem esquecer nada. Talvez afinal sejam duas caixas, uma para uma coisa e outra para outra. Pelo menos, é assim que vejo o mundo.

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