Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Dentro do possível

Não me lembro de ti nessa época, mas a primeira imagem que guardo de Londres é o teu olhar muito azul, luminoso e tímido, as piadas secas do Alex. Metemos o Alex num táxi e nunca mais nos largámos.
24 de março de 2017 às 00:21
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Dentro do possível

Várias vezes atravessámos aquela ponte, lembras-te? Londres nunca me foi uma cidade fácil, embora tenha viajado pelo mundo todo à conta do meu trabalho de modelo. Com vinte anos tudo é simples e leve, metes a vida numa mala de rodinhas e acreditas que vais sempre ser livre e feliz.

Conheci-te num bar em Notting Hill, nunca esquecerei essa noite, estavas com o teu amigo Alex e pensei que eram os dois bifos. Vieste direito a mim a falar em português, lembravas-te da nossa infância cruzada no jockey, eu a montar o Cifão e o teu irmão a saltar com o Puma, "tu parecias uma princesa guerreira e as boxes eram ao lado", disseste com um sorriso imenso quando te perguntei como, passados tantos anos, me tinhas reconhecido, sendo cinco anos mais novo.

Não me lembro de ti nessa época, mas a primeira imagem que guardo de Londres é o teu olhar muito azul, luminoso e tímido, as piadas secas do Alex, a forma compulsiva como bebia e se queixava da ex que o tinha trocado por um libanês bilionário e tu sempre a desculpar o amigo e os seus excessos. Metemos o Alex num táxi e nunca mais nos largámos.

Tu eras tudo o que eu sonhava num homem: alto, bonito, educado, inteligente, elegante, discreto, cavalheiro, a cabeça coberta de caracóis desarrumados, um bocadinho tímido, um bocadinho trapalhão, com um bocadinho de barriga que nem te ficava mal. O teu sotaque de fazer inveja à rainha dava-me a volta à cabeça e os teus blasers de fim-de-semana eram do mais chique que já vi. No mundo da moda, à custa de andarmos sempre a fotografar com roupas elaboradas, somos viciados em jeans, ténis e t-shirts brancas. Um vestido preto não nos faz pensar que estamos a perder tempo quando saímos à noite e quando nos habituamos a arrumar a vida numa mala de cabine, pensamos que somos livres para sempre.

Foi há mais de 10 anos que Londres sofreu um grande atentado. Três bombas explodiram ao mesmo tempo no Tube, uma delas na linha que apanhavas todas as manhãs para ir trabalhar. Eu estava em Cascais a fotografar uma produção de vestidos de noiva – fiz tantas e nunca me casei – e gelei com a notícia. Mês de Julho, vinte e sete graus logo pela manhã, e eu enrolada numa manta com um ataque hipotermia, paralisada com ideia de estares e perigo. Uma gripe fora de época tinha-te retido em casa, mas com as comunicações de telemóvel cortadas, só conseguiste ligar-me à noite. Parecias muito calmo, sozinho em casa a ouvir Aznavour. Nunca mais me esqueci do teu tom de voz grave e sereno, não temos medo, é o que eles querem e não vão conseguir. Parecias o Churchill, parece que o espirito indómito do lendário estadista desce à alma dos londrinos sempre que há um atentado. Admirei a tua fleuma na época em que admirava tudo em ti e o meu sonho era casarmos e termos dois ou três filhos.

O tempo e a distância acabaram por matar o que restou do nosso amor, mas foi a tua indecisão que o condenou. Eu queria ir viver para Londres contigo, afina o meu trabalho permitia-me viver em qualquer cidade, mas nunca conseguiste ou quiseste dar esse passo.

Andei na corda bamba quatro anos, dei-te demasiado tempo e demasiado lastro, e quando olhei para o calendário, estava com 35 anos e a minha carreira de manequim quase acabada. Convidaram-me para ser booker na agência, mas preferi candidatar-me a educadora de infância num colégio para tomar conta de crianças, eu que nunca fui mãe e agora nem me imagino a fazer outra coisa.

Estavas sempre a fazer planos para voltar para Portugal, tinhas saudades da tua mãe e do teu irmão, foi talvez isso que me fez ficar liga a ti durante tanto tempo. Não são os sonhos que nos agarram, mas a possibilidade de se tornarem possíveis. Eras português como eu, a pátria com todos os seus encantos chamava-te. Tinha saudades e, no entanto, nunca voltaste.

Quando ouvi as notícias do atentado na ponte de Westminster, nem me lembrei de ti. Não somos amigos no Faceboo, por isso não sei se te marcáste como seguro. Seguro nunca foste, sempre a magicar planos que nunca se cumpriram e a falar num futuro que nunca quiseste, ou conseguiste construir. O Alex também nunca casou, as últimas notícias que tive dele não eram as melhores, estava internado numa clínica por distúrbios psiquiátricos.

Deixaste-me o coração tão partido que só voltei a apaixonar-me por outro homem quase dez anos depois, alto, inteligente e delicado como tu, mas também com os caracóis desarrumados dentro e fora da cabeça. Desta vez fui mais rápida, desisti ao fim de três anos. Parece que a certos homens muito inteligentes lhes falta a determinação, o motor de arranque que os impede de fazer o caminho da felicidade. Mesmo assim, desejo que sejas feliz à tua maneira, porque quando amamos alguém e ele nos escapa sem razão, apenas lhe desejamos os melhor do mundo, dentro do possível.

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