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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Depois de uma certa idade

Ou me aparece alguma coisa de jeito, ou fico para tia solteirona.
01 de novembro de 2019 às 17:48
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casal 1920, cruzeiro, férias, viagem Foto: D.R.
Esta noite sonhei que estava no ano de 1920, prestes a embarcar num cruzeiro com a minha tia Clotilde. Nunca tive uma tia chamada Clotilde, mas não faz mal. A tia Clotilde está atrasada, chega ao cais da Rocha do Conde de Óbidos de libré com um chapéu com plumas pequenas e um casaco de peles demasiado comprido para a sua estatura.

Nos anos 20 eu também já sou alta para a minha geração – tal como era nos anos 80 – mas o meu cabelo é encaracolado e sou um bocadinho larga de anca. Tenho a pele muito clara, as mãos pequenas e um par de olhos azuis que anda a partir corações desde que tenho 13 anos. O problema é que já estou com 24 e nunca quis casar com nenhum pretendente. Já recusei tantos que a minha mãe, desesperada com a ideia de ter uma filha solteira, decidiu pedir à tia Clotilde que me levasse num cruzeiro, a ver se arranjo noivo na viagem.

A tia Clotilde é irmã da minha avó Edite, enviuvou há alguns anos e desde então vive em dedicação e devoção frenéticas pelas suas sobrinhas que são a minha prima Mimi, a minha irmã Maria do Carmo e eu. Só que as duas outras palermas já casaram, a Mimi com um amigo do irmão que foi colega no Colégio Militar e a minha irmã com o Manuel Francisco, filho mais velho do nosso médico lá de casa, que andou sempre de roda das saias dela desde gaiato, e a Carminho que é mandona e tem a mania que é a Rainha da Estefânia, viu ali um pajem para a servir. Ele é uma fraca figura, tens os dentes muito tortos e bastante amarelos, é fanhoso e lingrinhas, mas a minha irmã que é oposto de mim em tudo, prefere um pássaro na mão do que dois a voar, mesmo que o pássaro mais pareça uma galinha depenada e pronta para ir a estufar. Já eu, aborreço-me com tudo o que me aparece. Às vezes ainda tento interessar-me, mas depois não consigo, eles dizem muitas vulgaridades, não sabem quem é o Séneca, nem o Epiteto nem o Marco Aurélio. Se lhes falo do Livro das Meditações, pensam que é um missal.

Ora eu não estou para me casar com um rapaz qualquer que a minha mãe acha que é bom partido só para lhe fazer a vontade. Ou me aparece alguma coisa de jeito, ou fico para tia solteirona, coisa que em nada me assusta, porque a tia Clotilde parece muito mais feliz desde que se encontra viúva, isto não se pode dizer, mas é mesmo assim, de modos que um marido, além de dar muito trabalho, pode ser o cabo dos trabalhos, e eu não estou para isso.

Assim que sai do libré, aproxima-se um senhor de fato completo, com um relógio de ouro guardada num dos bolsos do colete, chapéu e sapatos com polainas para a ajudar. Nunca o vi, nem a tia Clotilde, que logo lhe pergunta o que deseja o cavalheiro e lhe ordena em tom ríspido que se apresente.
- O meu nome é Álvaro Sampaio, minha senhora, sou viúvo e senti-me na obrigação de ajudar vossa excelência a descer do libré. Foi um impulso, peço perdão pela ousadia, mas foi assim que a minha santa mãe que Deus tem me educou, ajudar sempre uma senhora em qualquer circunstância.

Vi o olhar da tia Clotilde a percorrer a figura da criatura de alto a baixo. Depois ajeitou o chapéu com grande coquetterie e respondeu:
- O amável cavalheiro está no direito de fazer o que muito bem entender.
- Nesse casso, permita-me que lhe dê o meu braço e a amparar na subida pela escada de portaló.
- Não se incomode, tenho ali a minha sobrinha Madalena à espera. - Responde a tia, apontando para mim com o cabo de osso do seu guarda-chuva que tem uma linda cabeça de pato esculpida com arte e requinte. Não sei porque traz um chapéu de chuva para um cruzeiro, mas depois de uma certa idade as pessoas têm as suas manias e há que respeitar.
- Oh, mas que menina tão bonita! É casadoira?
- Isso é o que nos gostávamos, mas olhe que com aquele feitio de rapazinho, ainda me caso antes dela.
- E faz muito bem – responde o pretendente inventado.

Ainda bem que trouxe comigo o Livro das Meditações do Marco Aurélio. Estou em crer que vai ser uma longa viagem.

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