Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Dia a dia

Olho para as pessoas, mas quase nunca as vejo. Limito-me a ver através delas, o que provoca uma sensação de estranheza a que tentar apanhar o meu olhar. Não é só miopia, é mesmo feitio.
24 de maio de 2019 às 18:00
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Dia a dia
Foto: D.R.

Gostei de ti, mas não foi logo assim que te vi. Nada disso. O primeiro olhar que cruzámos foi de curiosidade da tua parte e de algum enfado da minha. Cheguei ao bar com a minha amiga Sara, uma morena de sorriso iluminado com laivos de ruiva na pele fresca e no cabelo farto que lhe dão um je ne sais quoi de originalidade e de charme. Há mulheres assim, discretas de modos e de indumentária, que chamam a atenção dos homens à segunda vista. Não treinei esse estilo, por isso quando entro num bar numa noite de fim-de-semana, estou habituada a evitar os olhares que não quero cruzar. A Sara diz que faço cara de chinesa para ilustrar a minha expressão vazia e distante de quem está ali por mero acaso, como se visse através das pessoas. E é mesmo isso que sinto: olho para elas, mas quase nunca as vejo. Limito-me a ver através delas, o que provoca uma sensação de estranheza a quem tenta apanhar o meu olhar. Não é só miopia, é mesmo feitio. Porém, se algo me interessar, consigo alterar a expressão e fixar a outra pessoa. Tudo isto acontece muito depressa, rapidamente regresso ao estado etéreo anterior, é muito raro voltar a cruzar o olhar, já me conheço, acho sempre que nunca vale a pena.

Mas tu não és de te ficar. Quando passei por ti, meteste conversa. Eu desconversei, tu não desarmaste. Provoquei-te com comentários feministas e tu não reagiste. Nem percebi que te estava a testar, tu percebeste, fizeste-te de parvo e continuaste a conversar. À medida que os minutos passavam, eu ouvia cada vez menos o barulho em nosso redor e mais a tua voz pausada, vagamente trocista. O ruido de fundo tornou-se irrelevante e as pessoas perderam cor e densidade. Menos de uma semana depois ficámos juntos. Passeámos de mãos dadas, comemos gelados, tirámos selfies e dormimos na mesma cama. E tu estavas sempre a sorrir e a conversar. Nos momentos de silêncio cada um lia o seu livro. Durante a noite, puxavas-me para ti até encaixar as minhas curvas nas tuas e eu sentia-me em paz, protegida, sossegada, quase como se estivesse em casa.

Há histórias que começam assim, com a seriedade de quem brinca. Finalmente meu coração voltou a bater por alguém. Andava muito mecânico, funcional e cumpridor, sem paixão nem alegria. Se fosse um relógio de cuco, eu diria que o cuco estava de greve, ou rouco, ou com preguiça de sair da caixa de madeira onde dormita quando não tem de dar as horas. O meu cuco estava de baixa, por assim dizer. Agora não. Acordou para a vida, rejuvenescido e espevitado, como se tivesse sido consertado. E talvez tenha sido. Afinal de contas, o que é preciso para consertar um coração partido? Três coisas: tempo, silêncio e um novo amor. Tempo para apagar o passado, silêncio para nunca mais voltar atrás e um novo amor para nos trazer a luz e a paz de um novo dia.

Tens muitas coisas que eu gosto. Tens educação e valores, tens humor e leveza, tens planos e filhos, tens coração e cabeça, ambos no seu lugar, e olha que não é fácil, porque o mais existe por aí são pessoas com a cabeça baralhada e o coração fora do peito, fechado numa gaveta, amordaçado num saco azul, ou a escorregar pelos dedos, frágil, a céu aberto. O teu está no peito, colado ao meu, quando a meu lado te deitas. Oiço-o a bater, às vezes muito depressa, e imagino que o teu cuco conversa com o meu e juntos planeiam viagens e fins-de-semana na praia, tu no mar a fazer ondas e eu a ler e a dormitar, leve como um pardalito distraído. O teu cuco e o meu dão-se bem, conspiram durante a nosso sono e voltam cada um para o coração que lhe cabe antes de despertamos. Talvez sejam mais espertos do que nós, ou saibam mais destas coisas do amor, porque nem tu nem eu andamos com cabeça para isto.

Ainda assim, acredito que quando estávamos naquele bar e conseguimos que o mundo se desvanecesse à nossa volta, já queríamos as mesmas coisas ao mesmo tempo. Não sei quando nem como vamos fazer, só sei que quando estás comigo é como se tivesse chegado de uma longa viagem e pudesse enfim descansar o corpo, a cabeça e o coração que o tempo e o silêncio ajudaram a consertar.

O futuro não tem dono e agora só quero continuar a descansar do mundo neste lugar de paz e de alegria e viver o dia a dia

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