Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Editar a vida

O escritor é um espelho da sua época. Quase sempre um espelho com imperfeições, manchas e estilhaços, e no entanto, talvez por isso mesmo, ainda mais fiel à realidade, também ela repleta de defeitos.
16 de novembro de 2018 às 07:00
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Editar a vida

"Uma paixão feliz tem, como a morte, o fim escrito com letras no rosto". A frase é de Claire Clairmont, uma das muitas amantes de Lord Byron. Tinha 18 anos quando se encontrou pela primeira vez com o poeta por quem nutria grande admiração, já que, além de ser dotada de uma voz maravilhosa, também tinha pretensões literárias. Era uma jovem bonita e arrojada, escrevia-lhe cartas empolgadas e não teve receio de se entregar a Byron na primeira noite, ainda virgem. Os momentos em que ficaram juntos terão sido de desejo tórrido para ele, e o despoletar de uma grande paixão para Claire.  Byron vinha de um casamento falhado que o destroçara. Dado a tiradas insufladas de romantismo, dizia que sentia que o coração tinha pisado por um elefante e que respirava chumbo. Além disso, era demasiado vaidoso e autocentrado para gostar verdadeiramente de uma mulher. O seu currículo de sedutor era largamente conhecido, nomeadamente com um caso tórrido com Caroline Lamb, mulher casada que nunca deixou de o perseguir e de o atormentar. Claire talvez tivesse outra índole, mas a paixão por Byron deu-lhe cabo da vida.

No final do seculo XVIII ainda não existia planeamento familiar e a jovem apareceu grávida dois meses depois do primeiro encontro. Mais tarde, Byron conseguiu ficar com a guarda da filha, tratando a pequena Allegra como um animal de estimação. Impedia Claire de ver a filha e nunca a ajudou financeiramente.  Claire ficou sem chão, pois entretanto fora abandonada pela família, por causa da sua conduta imoral. Byron acabou internar a pequena Allegra num convento onde a criança contraiu uma febre mortal.

A maratona de sofrimento de Claire estava desenhada. Nunca mais ultrapassou a culpa de ter deixado a filha com Byron, embora não tivesse meios para a sustentar. Viveu como governanta até ao fim dos seus dias e sobre Byron escreveu: a minha paixão durou dez minutos, mas bastaram esses dez minutos para arruinarem o resto da minha vida. A paixão, só Deus sabe porque motivo, mas não por culpa minha, despareceu sem deixar qualquer traço, exceto no meu coração, arrasado e destruído, como se tivesse sido queimado por mil raios.

Claire terá sido a única amante que Byron não amou. O poeta amarrotava as cartas que ela lhe enviava e comentava com os amigos mais próximos que nunca sentira paixão por ela, e que se uma rapariga de 18 anos se insinuava como ela o fazia, era homem e por isso impossível de lhe resistir. Claire não voltou a apaixonar-se. Construiu amizades sólidas, e no final da vida entregou-se ao catolicismo com fé e ardor.

Quase três seculos depois dou comigo a tentar perceber o que não tem explicação possível. O que leva uma pessoa com bom senso e juízo a perder a cabeça numa paixão avassaladora, irracional, irrealista e tantas vezes perigosa? Como pode recuperar o coração atravessado e queimado por mil raios, depois de tanta intensidade, tanta tristeza e tanto desamparo?

A literatura potenciou a figura da mulher-vítima do homem, mas se ela aparece com tanta frequência, é certamente porque sempre existiu. Estou em crer que a Luisinha de "O Primo Basílio" não é obra da imaginação de Eça de Queiroz, mas antes um paradigma feminino do tempo em que viveu. O escritor é um espelho da sua época. Quase sempre um espelho com imperfeições, manchas e estilhaços, e no entanto, talvez por isso mesmo, ainda mais fiel à realidade, também ela repleta de defeitos. Estas mulheres sempre existiram e sempre irão existir. Muitas vezes não são mais fracas, ou menos inteligentes, ou menos cautelosas. A paixão cega e ensurdece: deixamos de ver claro, deixamos de ouvir a voz da razão. Às vezes deixamos de ser nós para nos tornamos numa versão adulterada da nossa pessoa. A transformação pode ser tão intensa e profunda que o próprio perde parte da sua identidade, sem deixar de menosprezar aquilo em que a paixão o transformou. Felizmente tudo passa e mais tarde é possível regressar a um lugar de paz e de calma. Depois de contar mortos e feridos, depois de limpar os destroços e reconstruir casas e navios, o mundo volta a organizar-se em nosso redor. O piro já passou. No caso de Claire, aqueles dez minutos deram-lhe cabo da vida.

Um instante pode bastar para mudar a nossa vida. Basta seguir pelo caminho errado. Ainda assim, há sempre tempo para voltar atrás e corrigir a rota. A literatura ensinou-me que também se pode editar a vida.

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