Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Encostar à Box

A noticia não me deixou surpreendida, embora admita que foi inesperada. A Pilar e o Vicente ficaram noivos de repente, não mais que de repente, como escreveu o poeta Vinícius.
02 de novembro de 2018 às 11:46
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Encostar à Box

A noticia não me deixou surpreendida, embora admita que foi inesperada. A Pilar e o Vicente ficaram noivos de repente, não mais que de repente, como escreveu o poeta Vinícius. Ela bonita, enxuta, de boas famílias, esperta quanto baste, simpática, divorciada, cansada de colecionar casos inconsequentes. Ele também bonito, com porte a sangue aristocrático, razoável conversador embora nunca tenha lido um livro, nem sequer um artigo de jornal. Corre-lhes no sangue o gosto por cavalos e toiros, têm um grupo extenso, porém exclusivo de amigos em comum. Ele nunca casou, ela tem os filhos criados. Ele vai saltando de emprego em emprego, ela é herdeira. Ainda este Verão estavam os dois mais ou menos livres: o macho apostado numa busca incessante de um par e a fêmea aborrecida com os falhanços amorosos sucessivos.

Cruzei-me com eles em alguns restaurantes de praia e em casa de amigos comuns. Nunca os vi a conversar, nem sequer a sorrir um para o outro. Mas talvez tenha sido tudo muito rápido, talvez eu esteja mesmo enganada quando acredito que os milagres acontecem devagar, porque a maior parte acontece muito depressa.

Pilar e Vicente ficaram noivos por estes dias. Convidaram os casais amigos mais próximos, ofereceram um almoço de cerimónia com serviço Vista Alegre, baixela de prata, toalha e guardanapos de linho, bons vinhos e menu de eleição. No fim do almoço, o Vicente levantou-se de copo erguido, pediu silêncio na mesa e fez um breve, porém emocionado discurso que explicava porque pedia a Pilar em casamento. Os homens da mesa gritaram vivas e deram abraços uns aos outros, algumas mulheres borraram o rímel com tanta comoção e a tarde estendeu-se ate à meia noite. Quando todos partiram, Vicente e Pilar sentaram-se no sofá, a descansar da vida e do mundo lá fora.

Não importa se esta história é uma fatia da realidade ou fruto da minha imaginação irrequieta. Não interessa se aquilo que os juntou foi cansaço, interesse, medo da solidão, ou apenas aquela vontade de pertencer a alguém, de não chegar a casa todos os dias às horas que nos apetece porque não temos ninguém à espera. Esse é o preço da liberdade suprema, nem sempre voluntária. Ficamos sós porque não tivemos sorte, ou tivemos pouco juízo. Escolhemos mal e as coisas não podiam ter corrido pior, ou escolhemos a pessoa certa no momento errado, ou batia tudo tão certo que tivemos medo e borregámos como se diz no mundo equestre quando um cavalo, perante o obstáculo numa prova de saltos, trava a fundo e aborta a proeza. Não raro o cavaleiro cai para frente, vítima do impacto inesperado. Pode magoar-se ou não, pode escolher continuar a prova ou não, mas a sua classificação não será imaculada.

A Pilar e o Vicente não borregaram. Imagino-o a aconselhar-se com um amigo casado que o incentivou com entusiasmo e veemência, dando-lhe pancadinhas atrás das costas e dizendo, tenta, o que é que tens a perder? E imagino a Pilar, numa tarde ainda quente sentada na praia a cogitar como seria viver com aquele homem. Talvez então as dúvidas pesassem mais na balança da razão do que as certezas, mas perante o pedido inflamado o galã de cabelo branco e profundos olhos azuis, Pilar respirou fundo e pensou, ora aqui está uma oportunidade de encostar à box.

O que mais se perde com a idade não é a frescura, nem o vigor, nem sequer a boa forma física se uma pessoa não comer porcarias e for ao ginásio. O que mais se perde com a idade é a paciência. A paciência de começar tudo do zero, de conhecer outra pessoa com os seus defeitos, a sua família, os seus problemas, as suas dívidas e os seus fantasmas. Dá tudo muito trabalho e quase nunca vale a pena. Os anos vão-nos roubando a capacidade de investir. A partir dos 40 todas as decisões são com base no conforto, e a partir dos 50 são com base no sossego. Já ninguém tem energia nem saúde para lutar na rebentação e morrer na praia. Encostar à box talvez seja afinal um sinal de sabedoria.

Não sou suficientemente próxima de nenhum deles para constar na lista do casamento, mas do fundo do coração, vou ter pena de não estar presente quando o sonho for oficializado. Afina, o sonho comanda a vida e é sempre bonito ver o mundo quando pula e avança, como uma bola colorida entre as mãos de uma criança.

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