Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Endless Summer

Quando me canso de tanto sossego, vou até à praia e imagino-te em cima de uma prancha à espera da onda da tua vida.
20 de setembro de 2019 às 07:00
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Endless Summer
Foto: D.R.

Certas plantas não crescem em terrenos arenosos. Buganvílias e ameixoeiras de jardim, por exemplo. Recebi há uns anos as duas de presente de um rapaz bem-intencionado que sonhou casar comigo, se ao menos tivesse cabeça e coração para tal. Não foi o caso. Não há nada de errado em tentar mudar, e ainda menos em aceitar aquilo que não conseguimos mudar. O certo é que o tempo foi correndo, e a pequena árvore a o pé da trepadeira não cresceram

As quatro estações passaram quatro vezes e nada se alterou. E depois mais quatro, numa roda de tempo que corre sempre demasiado devagar quando paramos para o saborear e demasiado depressa quando nos esquecemos dele. Não estiolaram, não secaram, não morreram, mas nunca cresceram. A cada Inverno que atravessam, espero sempre o pior, contudo lá estão, frágeis e tímidas como aquelas meninas feias que escondem os óculos sempre que um rapaz se aproxima e desaprendem de sorrir por causa dos ferros nos dentes. 

O comportamento das plantas tem-me ensinado muito sobre a condição humana. Há umas que crescem demais, que invadem o espaço das outras, que se misturam criando espécies híbridas, que apanham pragas e têm de ser cortadas, que rejuvenescem do nada quando penso que já morreram, que dão frutos debaixo da terra, que dão veneno ao mundo. Há rosas sem pico e hortênsias do tamanho de meloas. O alecrim é atrevido e as lavandas são arrumadas. As oliveiras são sempre um bocadinho tristes, e os pinheiros, solitários. O meu jardim tornou-se um santuário onde medito, relaxo, leio e escrevo, oiço as conversas das folhas e as sinfonias dos pássaros, e tudo me embala como num sonho. À força de querer mudar aquilo que não conseguia, acabei por aceitar a beleza da imobilidade e de me entregar a ela. Afinal, nem tudo precisa de se mover para vingar no mundo. Estar quieto também é uma acção.

Quando me canso de tanto sossego, vou até à praia e imagino-te em cima de uma prancha à espera da onda da tua vida. No meu mundo encantado é quase sempre Verão, nenhum de nós envelhece embora os filhos já tenham crescido, tu estás sempre a sorrir, dormimos embalados no corpo um do outro e aquela praia é nossa. São nossas todas as bolas de Berlim, todas as conchas, todas as marés, todas as tardes em que o sol se põe. E tu estás n água, sentado me cima da prancha, à espera da onda perfeita, a que os surfistas chamam Endless Summer. O teu cabelo clareou ligeiramente com o sol, talvez a água esteja um pouco fria, mas tu nunca te importaste com as adversidades, cerras os dentes e avanças, gostas de um bom desafio, de ter um objetivo longínquo, de vencer o incerto e de conseguir apanhar as melhores ondas. 

O que talvez não saibas é que essa onda que esperas sou eu, a onda perfeita que te leva mais alto, mais longe, durante mais tempo. A onda que todos queremos apanhar pelo menos uma vez na vida. A mesma onda que nos faz sentir heróis, invencíveis e eternos. A que te faz olhar para trás e dizer, eu tive a sorte de estar no lugar certo à hora certa. A mesma onda que te faz voar sem asas, parar os ponteiros do relógio e sentir a plenitude de um momento perfeito, em cima da prancha ou em cima das minhas costas, até ao momento mais perfeito da existência chegar ao mesmo tempo.

Do meu jardim vejo o mar, hoje é dia do paquetes de recreio maiores do que muitas aldeias de Portugal zarparem rio abaixo em direção ao oceano, o ar fresco do final do Verão enche-me os pulmões de paz, não há luz mais bela que a de Setembro, talvez por estarmos no fim de mais um Verão infinito, respiro fundo e digo adeus aos turistas ensonados que visitaram Lisboa em três dias e partem convencidos que conhecem uma das cidade mais misteriosas do mundo, sento-me a escrever mais um romance e penso que Deus me deu tudo e que sou uma pessoa abençoada. 

Quem me dera poder limpar a areia do teu coração, para que nele crescer como uma onda gigante que transforma todos os teus medos em vitórias. Se isso fosse possível, eu seria para sempre a tua Endless Summer, a onda que todos os surfistas sonham apanhar. 

Às vezes, basta crer para querer.

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