Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Escrever a quanto obrigas

Escrever não é para espíritos fracos nem para gente medricas, com medo de falhar ou com pânico da solidão.
01 de fevereiro de 2019 às 08:00
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Escrever a quanto obrigas
Foto: D.R.

As pessoas têm quase sempre uma ideia poética e desfasada da realidade do que é o dia-a-dia da vida de um escritor. Acreditam que o escritor tem uma vida abençoada porque não atura colegas parvos nem chefes prepotentes, não precisa de picar o ponto nem de contar os minutos para o coffee break a meio da manhã ou para o almoço. Não precisa de levar uma marmita, não apanha frio nem chuva nem trânsito de manhã no Inverno e vai à praia no Verão quando quer.

Sou escritora profissional há vinte anos e acreditem que se contam pelos dedos as vezes que fui à praia quando estava a meio de um livro. E eu adoro praia. Conheço poucas coisas que me façam mais feliz do que deitar-me na areia a ler um bom livro e dar mergulhos à golfinho de meia em meia hora. Uma das coisas que me faz mais feliz no Rio de Janeiro é ter a praia a cinco minutos de qualquer lugar onde esteja, às vezes apenas a um. Mesmo assim, se estiver mergulhada a escrever um romance, só vou ao final da tarde, depois de sentir a que a minha tarefa diária foi cumprida.

Escrever não é para espíritos fracos nem para gente medricas, com medo de falhar ou com pânico da solidão. A escrita profissional é para guerreiros, combatentes, alma resilientes e corações resistentes. O grande escritor Javier Marias acredita que é preciso uma pessoa ser um bocado anormal para fazer todos os dias uma coisa que ninguém mandou. Ele tem razão. Há quase vinte anos que acordo, tomo um banho rápido, preparo o pequeno-almoço e me sento a uma mesa ou secretária para escrever. Nos primeiros romances foi tudo muito fácil, sentia que tinha muitas coisas para dizer ao mundo. Depois de 8 anos de facilidade, a minha vida começou gradualmente a complicar-se cada vez que me sentava. Lia o que outros escritores tinham a dizer sobre isto e todos diziam a mesma coisa: é cada vez mais difícil, mas a vida sem isto não tem sentido. Foi mais ou menos nessa época, há dez anos, que deixei de precisar de música para escrever. Posso teclar com banda sonora ou não, porque aprendi a abraçar o silêncio. Às vezes a música está dentro de mim, na escolha dos adjectivos, na invenção das personagens e das suas idiossincrasias que as tornam humanas, nos diálogos que desenho com a precisão de um escriba oriental. A música está dentro da minha cabeça e do meu coração onde vivo num universo paralelo e do qual nem sempre é fácil sair para regressar à realidade.

Para combater o modo toupeira, vejo as notícias à hora do almoço e antes do jantar. Tento ligar-me ao exterior por uns minutos enquanto aqueço o almoço ou faço ovos mexidos para não perder muito tempo. Os meus amigos e família já sabem que se estiver a meio de um livro e tiver combinado almoçar, posso desmarcar em cima da hora porque não quero nem posso sair do túnel. O telefone está em silêncio e as redes sociais fechadas. O meu túnel é sagrado, não posso cortar a respiração à minha história e deixar os meus personagens sem oxigénio, senão é como tirar o peixe do aquário e esperar que não morra ao ar. Morre sempre.

O maior problema de escrever é deixar de viver. Escrever nem sempre é viver, por isso é importante aprender a ler para lá dos livros. Ler a vida. Chega um momento do dia em que é mesmo preciso desligar o computador e ligar-me à vida. Nem sempre consigo. Às vezes fico no mesmo lugar mental até ao dia seguinte, sonho com a minha história e descanso apenas o suficiente para o corpo recuperar, sem nunca sair do túnel. Estou em viagem ao centro de mim mesma e dos meus fantasmas que acabam espelhados em páginas impressas meses mais tarde com uma capa cuidada e um título que faz o leitor sonhar e pensar. Mas acreditem, são sempre esses os melhores dias da minha existência, mesmo que esteja toda a gente na praia a aproveitar o melhor dia do ano. Para mim um dia bom é um dia que escrevo, um dia mau é aquele que por uma razão qualquer não me sai uma linha

Se um dia os livros acabarem, serei muito infeliz. A minha felicidade reside na minha família e no meu trabalho. Rezo para que esse dia nunca chegue. Sem isto, nada faz sentido, mesmo que esteja ao lado da melhor praia do mundo.

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