Margarida Rebelo Pinto
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Lenta é a combustão

A lua começou a trepar pelo firmamento, de um amarelo impertinente, como uma bola de ténis gigante lançada por um canhão, atrasada por uma imagem em câmara muito lenta. Lenta é a combustão, lembro-me de ter pensado, antes que o meu cérebro, aparentemente atento e desperto, se ia desligando nas suas funções, uma a uma, como um edifício de muito andares onde a luz vai falhando por sucessivos curto-circuitos e a escuridão galgando a fachada até ao último andar.
13 de abril de 2018 às 07:00
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Lenta é a combustão

A tarde caía devagar, com aquele langor que só se sente nos dias de verão.

Do lado direito esquerdo do bar principal entrou um grupo de portugueses, conhecia alguns de vista. Torci o nariz porque nunca me apetece interagir com conterrâneos quando estou de férias. Apenas um deles merece pertencer à categoria de amigo, o Nuno, meu colega de curso e mais tarde no banco, presença intermitente, porém segura na minha vida. Reparei no mais alto, de óculos escuros, cabelo despenteado, pescoço alto e largo. Fixei as suas mãos ao longe, a pele queimada pelo sol e no entanto ainda clara, os dedos de médico ou de pianista. Afinal eram de mágico, mas eu ainda não sabia. Mágico ilusionista, artista de circo disfarçado de bom rapaz. Uma raça perigosa, quase letal, se te apanha o coração.

A Belén ligou o seu radar infalível.

-  Aquele alto é o teu estilo, querida. E está a olhar para ti.

- Como sabes, se está com óculos escuros?

Tenho a certeza, - respondeu, no seu adorável sotaque castelhano -  daqui a cinco minutos já estão a meter conversa.

Foram menos de cinco minutos, o Nuno avançou de patins e apresentou o grupo. Cumprimentei todos como se fossem transparentes e foquei-me automaticamente no Vicente. Foi recíproco. A Belén tinha razão. Menos de 10 minutos depois, com o pretexto de fugir da confusão, fomos para a beira-mar e sentámo-nos cada um numa espreguiçadeira, lado a lado, a conversar.

A lua começou a trepar pelo firmamento, de um amarelo impertinente, como uma bola de ténis gigante lançada por um canhão, atrasada por uma imagem em câmara muito lenta. " Lenta é a combustão", lembro-me de ter pensado, antes que o meu cérebro, aparentemente atento e desperto, se ia desligando nas suas funções, uma a uma, como um edifício de muito andares onde a luz vai falhando por sucessivos curto-circuitos e a escuridão galgando a fachada até ao último andar. E, no entanto, eu falava e ouvia sem dificuldade, dizia coisas divertidas, inesperadas e inteligentes, sentindo-me em plena posse de todas as minhas faculdades.  Como é enganosa a aparência da realidade, só Deus lá sabe, do alto do seu trono omnipotente que tudo ouve, vê e entende, sem no entanto nos dar instruções para as contrariedades que sempre sucedem às grandes empreitadas.

Correr riscos faz parte da vida, mas se soubesse o que sei hoje, talvez me tivesse protegido um pouco mais. Afinal, bem vistas as coisas, eu sabia como era o mundo, ele é que me levou para fora de pé e eu deixei-me ir na onda. Era impossível resistir a tanto bem-estar, tanta paz, tanto entendimento, tanto desejo e tanta vontade de tanta coisa ao mesmo tempo.

"Há tantas coisas que fazem nascer o amor, mas acho que o nosso estava escrito." Estas e outras mensagens nos dias seguintes ao nosso primeiro encontro semearam no meu imaginário, sonhador e ávido de romance, a desgraça que se iria instalar quando batesse de frente com a realidade. Mas isso só sucedeu meses mais tarde. Nessa noite, a despedida foi já um longo abraço, exalando oxitocina que é a hormona das relações vitalícias, seguida de interminável comunicação via whatsapp, o novo motor dos amores modernos.

O grupo ainda insistiu para continuar a noite no Pacha, mas tanta emoção fora demais para mim e voltámos para o hotel.

– Vou-me apaixonar, – disse a Belén no táxi, enquanto espreitava a lua, imensa e safada, a rir-se de mim.

– Não querida, já te apaixonaste. Agora é tarde.

Tinha razão. Quando acontece tudo muito depressa, é quase sempre demasiado tarde.

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