Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Logo se vê

As semanas passaram, enchi-me de força e enviei o currículo para todos os amigos que me lembrei. O Luís telefonava de vez em quando para saber dos miúdos, mas eu mal lhe respondia. Tinha-o posto na rua depois de descobrir que o caso com a secretária que ela tinha tido há cinco anos afinal nunca acabara, apesar de ela ter cessado funções. Perdoara-lha há cinco anos, agora era impossível.
06 de janeiro de 2019 às 12:17
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Logo se vê

Podia ter dito que não, quando o Zé Manel se ofereceu para me ir buscar ao aeroporto, mas a carência falou mais alto e acabei por ceder. Não me lembrava quando fora a última vez que tivera alguém à minha espera nas chegadas e gostei da ideia.

Separei-me do Luís logo a seguir ao Verão, num dia de Setembro em que fez muito calor. Não anotei na agenda, eu que anoto tudo, porque quis esquecer esse dia, apagá-lo a minha vida como se fosse possível entrar no calendário e suprimir uma data. Também foi nesse dia que o dono do atelier onde trabalhei durante 18 anos anunciou que ia fechar as portas no dia 31 de Dezembro e que depois disso estávamos por nossa conta e risco.

Às vezes a vida põe-nos à prova com dias em que tudo acontece, uma espécie de tempestade perfeita, como se o universo conspirasse contra nós. No regresso a casa, sentia-me tão exausta que deixei o portão aberto, o Wolfe saíu à socapa e como já estava surdo, não deve ter ouvido o motor de uma pick-up que vinha a passar mais depressa do que seria recomendável e o atropelou involuntariamente. O cão sofreu de morte instantânea, a pick-up nem um aranhão teve. Foi tudo muito rápido. Ouvi uma travagem brusca uma pancada seca, e num segundo, o cão que viu crescer os meus filhos e que nessa mesma manhã se aninhara aos meus pés durante o pequeno-almoço ao sentir a minha tristeza, já não estava mais entre nós.

Saí a correr para a rua, um rapaz com uma expressão de grande aflição e o cabelo despenteado, agarrou o Wolfe ao colo e disse-me:

- Lamento, lamento, o cão é seu?

- Meu e dos meus filhos – respondi com a voz embargada de tristeza. E agora? Como é que eu ia dizer aos miúdos que ontem viram o pai sair com uma mala de rodinhas que o cão foi atropelado?

- Nem o vi, ele atravessou-se de repente, mas é claro que não tenho desculpa possível, – continuou o rapaz – não sei o que fazer, mas se concordar, pago que for preciso ou compro outro cão para os seu filhos…

- Nenhum cão substitui o outro. Os meus filhos já são crescidos, mais tarde ou mais cedo sabíamos que isto í acontecer. O Wolfe já estava doente e surdo, deve ter sido por isso que não ouviu o carro.

- Mesmo assim, se eu puder afazer alguma coisa, o meu nome é José Manuel, mudei há poucas semanas aqui para o bairro…

E depois não me lembro de mais nada porque desmaiei. Quando voltei a mim, o novo vizinho tinha-me pegado ao colo e trazido para dentro de casa, porque além de ter deixado o portão aberto, também me esquecera de fechar a porta de casa.

- Não se assuste por favor, desmaiou na rua e ache melhor trazê-la para dentro – ouvi-o dizer ao longe. Estava muito aflito com o mal que causara. E foi assim que fiz um amigo para a vida.

Nessa tarde, quando os miúdos chegaram da praia, contei-lhes a triste noticia e chorámos os três. Perguntei-lhes se queriam outro cão, ambos disseram que não. A Madalena, mais ponderada, acrescentou:

- Ainda é muito cedo para pensar nisso mãe, deixe passar algum tempo e depois logo se vê.

As semanas passaram, enchi-me de força e enviei o currículo para todos os amigos que me lembrei. O Luís telefonava de vez em quando para saber dos miúdos, mas eu mal lhe respondia. Tinha-o posto na rua depois de descobrir que o caso com a secretária que ela tinha tido há cinco anos afinal nunca acabara, apesar de ela ter cessado funções. Perdoara-lha há cinco anos, agora era impossível. Apenas poupei os miúdos da verdade, não quero que pensem que o pai é um crápula, mas dentro do meu peito o coração congelou e nunca mais senti nenhum tipo de emoção, a não ser quando o Wolfe foi atropelado.

Consegui uma colaboração num atelier, todas as tardes em troca de um ordenado baixo, mas já e um começo. Antes de iniciar a nova fase da minha vida, comprei uma ida e volta em low-cost e fui visitar a minha irmã a Cabo Verde onde está em missão humanitária durante seis meses, enquanto os miúdos passavam as ferias de Natal com o Luís.  

A poucos dias de voltar, o Zé Manel começou a conversar no Facebook e pediu para me ir buscar ao aeroporto. Quando cheguei vi-o envolto num sobretudo comprido e com um vulto ao colo. Era um Labrador bebé, de olhos verdes, adorável.

- Toma o teu presente de Natal – disse-me com aquele sorriso meio aflito que nunca deixou de e ter desde o fatídico dia de Setembro. – Espero que gostes. Os miúdos vão gostar com certeza.

E deu-me um beijo na boca. Não senti nada. Só gratidão. Como disse a minha filha Madalena, talvez seja ainda cedo. Ou talvez já seja um começo.

- Obrigada – respondi, com a vos embargada – Feliz ano novo para ti.

Talvez hoje seja o primeiro dia do resto da minha vida. Ou talvez não. Logo se vê, logo se vê.

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