Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Manhãs submersas

Quando mudei para esta casa, nunca imaginei que o rio me fizesse tanta companhia. É certo que a vista não te aquece os pés no inverno, mas pelo menos aquece-te a alma.
04 de outubro de 2019 às 22:34
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Manhãs submersas

Hoje acordei com as sirenes dos navios a gritarem como animais surpreendidos em cativeiro. O rio amanheceu cansado, em tons de cinzento e de azul claro, sobre a outra margem pairava uma névoa de filme de aventuras, mística, quase medieval, como um muro, que tanto podia ser de algodão como de betão. 

Todos os dias o rio é diferente, é sempre outro rio. Mesmo entre a manhã e o final da tarde, tudo pode mudar, das cores ao movimento das águas, do vento às marés. É sempre o mesmo rio e não é, tal como tu e eu, ou nós, ou o que já fomos, ou o que ainda somos, e que nenhum sabe o que é. Os cargueiros cruzam-se com pequenas embarcações à vela e com paquetes gigantes a quem as pessoas gostam de chamar cruzeiros, por cruzarem mares e oceanos, mas para mim o Cruzeiro é uma estrela, e quando te habituas a ver as estrelas, nunca mais tens vontade de descer à terra.

Nós sempre fomos assim, num instante estávamos a pisar o chão e no outro tu voavas nas minhas asas e dávamos a volta a todas as galáxias. Não sei como conseguíamos voar tão alto e tão longe, o certo é que fui vendo sempre mais e mais estrelas, mergulhada no espaço infinito do meu prazer e da tua imaginação. E depois descíamos por uma escada qualquer, tu sempre primeiro do que eu porque tens menos tempo e por isso vives com mais pressa, e a vida continuava contigo do outro lado da vida. 

Hoje o rio estava opaco e triste, as sirenes apitavam como animais surpreendidos em cativeiro. Vi dois cargueiros que se cruzavam como duas almas desavindas, um descia o rio e o outro subia, uma parecia um homem e o outro uma mulher. No meio do rio estavam distantes, mas da minha janela pareciam próximos, é este o mistério da perceção, a realidade não existe, vês aquilo que o teu coração imagina, ora toldado pelo medo que te domina, ora levado pela esperança que te acalenta. Vês mais aquilo que queres ver do que os outros querem que tu vejas, vês amor onde ele já morreu e a presença de quem já partiu. Vês mais com o desejo, com a memória e com a imaginação do que com os teus próprios olhos. Vês o que queres e o que sonhas, vês com as mãos e com os ouvidos, vês sobretudo com o coração.

Quando mudei para esta casa, nunca imaginei que o rio me fizesse tanta companhia. É certo que a vista não te aquece os pés no inverno, mas pelo menos aquece-te a alma. Se da nossa janelas vemos o mundo, então o meu é cada dia mais claro, mais limpo e mais belo. E cada dia mais leve, porque já não te espero com o coração nas mãos. Agora é apenas o desejo que fala mais alto, a chamar pelo teu, para voarmos sempre que nos apetecer, lançados da janela como dois pássaros enamorados, para uma volta sobre o rio, sobre a realidade, sobre a vida, sobre o passado e o futuro, sem nunca olhar nem para um nem para outro. O desejo é isto: tu vens e abraças-me, agarras-me, brincas comigo e depois eu faço o mesmo contigo, jogamos sempre os dois para ganhar, e ganhamos à morte e à erosão do tempo, empatamos no prazer e perdemos o juízo. 

Mas hoje, quando vi os dois cargueiros, um a subir e outro a descer, um que parecia um homem e outro uma mulher, percebi que apesar de sermos o avesso um do outro, as nossas vidas correm ao largo uma da outra e em direções opostas. Tu queres segurança e eu quero liberdade, tu queres a tua vida como tu a queres, e eu a minha como a sonhei. E não queremos o mesmo da vida ao mesmo tempo. 

O nosso amor viverá para sempre no rio, debaixo das águas, em manhãs submersas e clandestinas, faça chuva ou faça sol, com ou sem nevoeiro, imune aos gritos das sirenes. E os nossos corações, vestidos de escafandros, poderão enfim esconder-se no casco de uma caravela naufragada, metáfora perfeita das vidas que passam ao lado da vida.

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