Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Margarida Rebelo Pinto: 'Case Study'

O que faz de mim uma pessoa especial é ter sempre tempo e paciência e coração para ti, que andas sempre a trabalhar, ou a fugir, ou as duas coisas ao mesmo tempo, o que no teu caso dá imenso jeito.
05 de maio de 2017 às 07:00
...
Margarida Rebelo Pinto: 'Case Study'

Tenho quase a certeza que muitas vezes dás contigo a perguntar aos teus botões porque não te largo e insisto em fazer parte da tua vida. Eu sei que sou terrível, posiciono-me sempre um furo acima da minha condição: quando era tua namorada comportava-me como se fosses meu marido e agora que somos umas coisa que ninguém consegue definir, tenho a mania que sou tua namorada. Não é falta de lucidez, é mesmo malandrice, como se vivesse dentro de mim uma actriz com talentos de longo prazo. Sabes o que dizem as miúdas que servem à mesa nos restaurantes em L.A.?  'I’m an actress'. Mesmo que nunca tenham saído com o papel de nenhum casting, acreditam que um dia vão conseguir. E algumas conseguem mesmo.

Quando comecei a brincadeira das cestas decoradas também acreditei que ía conquistar o mundo. Quem faz um cesto faz um cento, eu tinha sido operada ao coração e os médicos disseram "não se pode cansar", o que era sinónimo de "não pode dançar". Troquei uma carreira promissora e sofrida de bailarina por inventora de cestos. Comprava e decorava, flores, frutos, berloques, fitas, laços, franjas, o que me apetecia, sem pensar que um dia as minhas brincadeiras enfeitadas me iam levar longe. Fui organizada e ambiciosa, investi na imagem da marca, ofereci as minhas meninas a atrizes e apresentadores de televisão, e quando dei por mim era a Maria das Cestas, toda a gente queria ter uma cesta minha para levar para a praia ou para um cocktail.

Foi uma loucura. Quantas mais cestas fazia, mais vendia. Dupliquei o preço e tripliquei as vendas. Uma amiga conseguiu pôr as cestas no Begdorf & Goodman, em Nova Iorque e saíram na Vogue americana. No mesmo verão apareceram na Vogue francesa e italiana e eu vi todos os meus sonhos realizarem-se.

Agora que estás em Nova Iorque em trabalho, apeteceu-me escrever-te. Quem me dera ter ido contigo, mas nunca coube numa mala, embora a forma como me dobras em oito me faça ficar do tamanho de uma Samsonite de cabine. Ninguém brinca com o meu corpo como tu, ninguém me faz voar como tu fazes, se calhar é por isso que quando puxo por ti dizes que já estou a voar e se calhar estou mesmo.

Tenho asas no coração, sempre tive, mas desde que te conheço são maiores e mais fortes, não sei como explicar isto, é como se me acendesses as luzes todas dentro do peito. Sei que tens muito orgulho no meu lado empresarial, um 'case study' para gestores e aprendizes, mas tu sabes que a minha maior qualidade não é ter o toque de Midas nem ser um fenómeno de sucesso. O que faz de mim uma pessoa especial é ter sempre tempo e paciência e coração para ti, que andas sempre a trabalhar, ou a fugir, ou as duas coisas ao mesmo tempo, o que no teu caso dá imenso jeito.

Não sei se algum dia me vais levar a Nova Iorque ou a L.A, nunca entrámos no mesmo avião ao mesmo tempo, nem te peço uma relação estável, casa e pucarinho, férias com as crianças em agosto e na Páscoa, o sonho burguês de sermos um casal normal, porque sei que entre nós nunca nada foi normal. Só quero que saibas que me podes levar onde quiseres sempre que quiseres, mesmo dobrada dentro da mala, porque vou caber sempre na tua vida, mesmo que não saibas onde me encaixar.

Um dia ainda vais agradecer-me tanto delírio e tanta determinação. O sonho comanda a vida e cada vez que uma mulher sonha, o mundo também pula e avança. O meu mundo mudou contigo, quem sabe um dia, podemos os dois abraçá-lo numa viagem sem fim a caminho da felicidade.

Mais notícias de Pessoas Como Nós

A menina Clarinha e eu

A menina Clarinha e eu

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor.
Mergulhar no futuro

Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
Com cinco letras apenas

Com cinco letras apenas

É engraçado como as palavras mais belas e mais importantes têm três, quatro ou cinco letras. Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, filho, paz, saúde, sonho, amor, fado. Beijo, abraço, toque, sim, não, já, agora, calma, vem, fica.
Claras em Castelo

Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!
;