Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas como nós

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Margarida Rebelo Pinto: Corações hipotecados

O Pedro é um quarentão que gosta de boa vida. Faz desporto sem se preocupar com o tamanho da sua barriga, come e bebe tudo o que lhe apetece, sem culpa nem remorso. E adora mulheres.
06 de abril de 2017 às 00:00

Quem me ler todas as semanas aqui no site FLASH! pode ser levado a pensar que passo muito tempo em restaurantes e esplanadas a espiar conversas alheias. Nada é menos verdade. Não sou dada a esse tipo de lugares e nunca vou sozinha. Há sempre um ou dois amigos que me acompanham, e as conversas são tempo tão boas, que nem tenho tempo ou vontade de apanhar com o meu radar incansável as conversas que correm nas mesas do lado. Porém, com a minha imaginação fértil de escritora, por vezes basta-me olhar para uma pessoa ou um casal para lhes imaginar nomes, idade, fichas clínicas, profissões, hobbys e segredos. Deve ser a isto que se chama deformação profissional.

Vou lanchar com o meu amigo Pedro com frequência. O Pedro é um quarentão que gosta de boa vida. Faz desporto sem se preocupar com o tamanho da sua barriga, come e bebe tudo o que lhe apetece, sem culpa nem remorso. E adora mulheres. Pelo menos é o que ele diz. Em dez anos de amizade nunca o ouvi dizer mal de nenhuma, a não ser quando um ex-caso o tentou lixar num assunto de trabalho. Tirando esse incidente, refere-se sempre às suas amigas, casos e namoradas com uma bonomia genuína, manchada por laivos de paternalismo que me incomodam, mas que ele nem percebe.

É um bom tipo e um óptimo amigo. Durante anos coleccionou namoros longos, durante os quais usou pouco desse vício tão masculino que se chama traição. Vi-o apaixonado duas vezes, sempre por mulheres que viviam noutros países. Curiosamente, quando ambas, em momentos diferentes, se dispuseram a mudar de país e investir na relação, o Pedro recuou. Sejam bem-vindos ao mundo real, apresento-vos mais um Peter Pan em versão executiva nacional, cabelos ao vento no seu descapotável, coleccionador de beldades com mais ou menos interesse.

Pedro gosta de todas mas não ama nenhuma. Nunca revela nomes nem traços que as posso identificar/ denunciar. Trata todas bem, mas não se fixa com nenhuma. Nunca lhe perguntei se há vasos comunicantes. Na verdade, o meu entendimento afectivo nunca foi dado à dança dos corpos, que é o que chamo quando um homem ou mulher andam enrolados com várias parceiras ou parceiros ao mesmo tempo. O Pedro diz que sou a mulher mais romântica de Portugal e eu acho que ele tem razão. Pior do que eu só a minha amiga Alexandra que corre em maratonas e chora nos trailers como se não houvesse amanhã.

- Não tens saudades de estar apaixonado? – Perguntei-lhe outro dia num desses finais de tarde em que Lisboa está mais bela do que nunca.

- Não. Nem sei se vou voltar a essa vida.

Oiço essa vida como se fosse um destino fatal e lembro-me do Fado da Sina, talvez o meu preferido de sempre, imortalizado pela Hermínia Silva de mão na anca.

- O que tens contra essa vida, como tu dizes?

- Quando estás apaixonado, o mundo fica reduzido a um funil, só consegues pensar naquela pessoa, é como se o teu coração só batesse quando ela está contigo. Cansa muito, dá-nos cabo do juízo e da saúde.

- É como se tivesses o coração hipotecado – respondo, imaginando um Banco do Amor onde deixamos o nosso órgão central entregue a um gestor de conta.

- Tal e qual. E tu? Não te cansas de ter o teu coração hipotecado? - E se esse tipo de quem tanto gostas não for o que sempre sonhaste?

- Mais vale ter pouco juízo do que não sentir nada – respondo, sem tristeza.

O Pedro sorri e pede mais dois mojitos. O Verão anda a piscar o olho à cidade, ambos temos sede de viver. Apenas não olhamos para o mundo da mesma maneira. 

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