Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Meia torrada

Atração não é amor, desejo não é amor, e até mesmo o uma paixão tórrida, se não incluir entrega, estima e sentido proteção, também não é amor. Até chegarmos ao amor, temos de ter muito cuidado com as imitações.
10 de novembro de 2017 às 07:00
...
Meia torrada

Eu estava sentada a beber um chá de camomila quando ele chegou.

Conheço-o há vários anos mas nunca fomos amigos, embora entre nós sempre tenha existido uma grande simpatia. Eu acabara de chegar de uma viagem do Camboja e de Laos, o frio de Lisboa dava uma sensação de um regresso a casa não totalmente voluntário.

A minha relação com a Lisboa é apaixonada, e como todas as paixões, passa por momentos difíceis. É a cidade da minha vida, mas preciso de viajar com frequência para nunca me ser difícil regressar. O Outono, que finalmente se anuncia arranjadas de vento frescas e revigorantes, faz-me pensar na minha maravilhosa coleção de gorros e de cachecóis que vão saltar das caixas da roupa de inverno hoje ainda, quando voltar para casa.

O que fazes quando estás solteira e se senta à tua frente um tipo giro, simpático, bem vestido, conversador, inteligente, divertido e sedutor? 

Sabes que ele é um pirata porque insiste em dizer que é bom rapaz, os bons rapazes nunca falam disso. Sabes que foi casado e que se separou há alguns meses. Imaginas que terá um ou dois casos mais ou menos fixos, embora te assegure que anda sossegado.

- Um sedutor nunca anda sossegado, ou está apaixonado, ou a jogar em vários tabuleiros. Por favor não insultes a minha inteligência com as tuas encenações ingénuas – respondo, enquanto peço mais meia torrada aparada. Meia torrada sabe sempre melhor do que uma inteira.

Tenho vontade de lhe perguntar qual o tamanho do seu coração. É uma dúvida que me persegue em relação aos homens, embora na verdade seja mais importante o espaço que têm lá para mim.

Não conheço nenhum homem que seja diretor do seu coração. Nem nenhuma mulher. Mas acredito que as mulheres distinguem a vertigem do desejo da loucura da paixão, e decidem se vão ou não embarcar em qualquer uma delas. Os homens não distinguem nada no início, sobretudo quando ficam intoxicados pelo desejo. E quando o desejo se sobrepõe a tudo, corres o risco de te transformares num ser objetivável, e isso pode ser o início do fim.

Ele contava nas suas façanhas profissionais e algumas pessoais. Havia no seu olhar endiabrado a vontade de partilhar comigo os disparates que andava a fazer. É para isto que servem as amigas, pensei. Mas ele também olhava muito para o meu decote, ainda sem cachecol, portanto havia ali mais qualquer coisa.

 Os adultos são como as crianças, só vão até onde os deixamos ir. Vi ali uma oportunidade de dominar o jogo. A primeira regra para dominar o jogo é não entrar no jogo. Mais fácil do que parece, porque os homens são bastante literais. Se lhes disseres "eu não quero ter uma aventura", podem não te levar a sério à primeira, mas à segunda vão acreditar. Não jogar consiste em transmitir-lhes toda a informação relevante para que eles não se estiquem.

No fundo é uma espécie de negociação, e todos sabemos que o amor é outra coisa, mas até chegarmos ao amor, temos de ter muito cuidado com as imitações. Atração não é amor, desejo não é amor, e até mesmo o uma paixão tórrida, se não incluir entrega, estima e sentido proteção, também não é amor.

O homem que tenha minha frente poderia ser perigoso se eu estivesse disponível, mas a sorte uniu-nos na inevitabilidade. Estamos ambos numa fase difusa, só sabemos aquilo que não queremos. Quando tenta agarrar a minha mão, vejo que está a tremer. Talvez não seja tão forte quanto aparenta. Ninguém é, só não vê quem não quer.

De que tamanho será o coração deste homem?

A minha intuição diz-me o que é desarrumado, que está viciado na sedução, que é mimado e insatisfeito, que já teve muitas mulheres e terá muitas mais e portanto, como por vezes acontece nas negociações, não vamos chegar um acordo porque não vou conseguir confiar nele.

Amanhã, já me esqueci que ele existe. Regresso a casa e lembro-me do meu primeiro Inverno sem ti. Fez muito mais frio nesse ano, ao menos isso.

Mais notícias de Pessoas Como Nós

A menina Clarinha e eu

A menina Clarinha e eu

Não sei quantas vezes tentei esquecer-te, talvez menos do que tu e mais do que o meu coração aguenta, a única que sinto é que, cada vez que a dou espaço à razão, o meu coração começa a encolher-se como um bolo sem fermento, a vida fica sem açúcar e os dias sem sabor.
Mergulhar no futuro

Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
Com cinco letras apenas

Com cinco letras apenas

É engraçado como as palavras mais belas e mais importantes têm três, quatro ou cinco letras. Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, filho, paz, saúde, sonho, amor, fado. Beijo, abraço, toque, sim, não, já, agora, calma, vem, fica.
Claras em Castelo

Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!
;