Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
30 de abril de 2020 às 23:55
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Mergulhar no futuro
Foto: Getty Images

Naquele verão de 1973, um ano antes da revolução dos cravos, passei as férias grandes na cama a ver os meus irmãos e primos a brincarem no jardim da casa alugada. Aquela janela era uma promessa de vida, o lugar onde imaginava o meu futuro quando lá chegasse e pudesse enfim saltar, correr e brincar, como todas as outras crianças que conhecia, pensava eu. A vida, tantas vezes madrasta, mostrou-me que afinal eu tinha muito mais sorte do que outras crianças que conheci, crianças que foram negligenciadas ou abusadas por progenitores ou familiares, ou que morreram de repente, por doença súbita ou atropelamento, mortes estúpidas como são todas as mortes de quem teria, à partida uma vida inteira pela frente, e que o acaso ou a má sorte colhem deste mundo sem aviso prévio, indiferentes ao desgosto e desolação daqueles que são obrigados a suportar a perda dos que mais amam.

Trinta e tal anos mais tarde, vivi a mesma sensação de bênção, de sorte, ou de proteção, quando consegui sair pelo meu próprio pé do Hospital de Santa Maria depois de um AVC que deixou pequeníssimas sequelas, tão pequenas que mal as sinto. Também perdera o controlo de movimentos no braço direito, sentira náuseas e vómitos e dores de cabeça de fazer rebentar os miolos e depois de 2 dias nos Cuidados Intensivos, em pouco tempo voltei a caminhar sem ajuda e recuperei rapidamente todos os movimentos.  É verdade que deixei de conseguir fazer ski por falta de equilíbrio e enjoo sempre que ando de barco, e então? Não preciso nem de uma coisa nem de outra para melhorar a minha qualidade de vida. As caminhadas diárias fazem de mim uma pessoa feliz e se Deus quiser, poderei continuar a fazê-las até ao fim da vida. O que perdi não é nada, comparado com o que via nas consultas, quando nas cadeiras da sala de espera estavam sentadas ao meu lado pessoas que foram internadas no mesmo dia que eu que não recuperaram na totalidade as suas capacidades motoras e/ou outras.  

Voltando à infância, que é aquele terreno eternamente fértil para qualquer escritor, o que guardo desses anos de recolhimento e de movimentos confinados ao básico é a capacidade de sonhar o futuro e de saber esperar. Com oito anos uma criança não tem capacidade para pôr a realidade em causa, ela aceita o que lhe acontece porque ainda não viveu o suficiente para mergulhar em inúteis e desgastantes viagens interiores à procura de respostas para todos os porquês. Não me lembro de pensar porque é que aquilo me tinha acontecido. Apenas me lembro de aceitar que a minha vida era assim, encontrando alegria e alento na ideia de que o futuro iria ser diferente. Eu via os miúdos a andar de baloiço a descer os escorregos no recreio, a jogar à apanhada e a saltar ao elástico e pensava sempre, um dia vou estar ali a fazer o mesmo que eles. A pouco e pouco comecei a saltar ao elástico porque, aos olhos das freiras zelosas que vigiavam o recreio e que ordenavam que me mantivesse sentada num banco duro e frio, não era tão cansativo como o resto. Durante as aulas de educação física, no ginásio imenso do colégio, que nas festas anuais se enchia de cadeiras para que os pais assistissem às habilidades cénicas e canoras dos seus rebentos, sentava-me no palco encostada a uma das barras de ferro que suportavam um cesto de basquete com as pernas a balançar no vazio e cantava baixinho, enquanto a aula decorria. Sabia que dentro de dois ou três anos poderia voltar a subir ao espaldar e a saltar o trampolim, tratava-se apenas de uma questão de tempo e de paciência. E assim foi.  

Anos depois voltei para o ballet que era a minha paixão e pedi aos meus pais para me porem na natação porque já tinha 11 anos e ainda não sabia nadar. Durante as primeiras aulas na piscina chorava de raiva por não conseguir aprender a respiração, mas em pouco tempo nadar tornou-se num prazer maravilhoso. Ainda hoje, sempre que dou um mergulho e deixo que o corpo e os membros se entreguem à lassidão aquática me sinto abençoada. E é sempre a mesma sensação de prazer, repetida à exaustão. Sempre. Acredito que a sensação me chega intacta a todos os sentidos porque fui obrigada a esperar e a aprender.

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. No fundo é como se já estivesse a furar as ondas em acrobacias de golfinho. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto. Havemos de lá chegar, acreditem. Havemos de lá chegar.

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