Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Mojitos e suecas

Eu já estava com vontade de rebentar com o casamento. Na última noite meti-me com o Andrès e enrolámo-nos.
03 de janeiro de 2017 às 16:08
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Mojitos e suecas

- Há dez anos que não vou à Riviera Maya. Foi o meu destino de férias durante três anos, enquanto estive casada com o António – disse-me a Leonor, minha nova colega na farmacêutica. Foi contratada para me assessorar no Marketing, veio da concorrência e parece ser boa miúda.

- Nunca fui – respondi enquanto me decidia por um penne al pomodoro no restaurante novo que abriu ao lado da sede.

- Devias ir. As praias são um sonho e as ruínas uma loucura. É tudo lindo, perfeito, e por isso muito perigoso.

- Porquê? Tem tubarões?

- Nada disso. Tem gajos giros e solteiros, num instante perdes a cabeça.

- Espera lá, não estavas casada?

- Sim, mas burro amarrado também pasta.

Engasguei-me com a água com gás que pedira entretanto. Nunca fui casada, embora viva com o Pedro há dois anos, por isso os casos de traição do foro conjugal deixam-me sempre curiosa e perplexa.

- Conta lá isso melhor, se não te importas.

- Não me importo nada. Foi há dez anos, nove e oito. Nós íamos sempre para o mesmo hotel. No primeiro ano já discutíamos um bocado. Para evitar as discussões eu ia para o outro lado da praia ler ou escrever num caderninho aquilo que me passava pela alma.

O dono do hotel era um catalão simpático e bem-parecido. O Andrès. Vivia lá há cinco anos, depois de ter ganho o seu primeiro milhão e deixara a noiva pendurada no altar.

Quando me contou a sua história fiquei estarrecida. Deixou-a mesmo pendurada, entendes? Tudo marcado e ele não apareceu nem avisou. Dizia que nunca se tinha arrependido. As turistas iam e vinham e ele governava-se assim.

Nem me lembro de o ter achado giro. Era interessante e muito simpático. Quando voltámos para Lisboa nunca mais me lembrei dele. Só no ano seguinte, quando escolhemos o mesmo hotel. Recebeu-nos com grande abraço. O António simpatizava com ele.

- Então o que aconteceu?

- O meu casamento estava condenado, mas nenhum queria desistir. Sabes como é: filhos, logística, colégios, empréstimos para a casa e para os carros… desmanchar tudo parecia demasiado complicado. Estávamos sempre a embirrar e a discutir, o sexo era péssimo.

Durante as férias, o António fez-se amigo de duas suecas, uma feia e borbulhenta e a outra baixinha engraçadinha, com cara de boneca. Pareciam inofensivas. Mas o António ficou maluco com a baixinha. E eu a perceber tudo.

Não imaginas a sensação de estar a milhares de quilómetros de casa sozinha num paraíso com o teu marido ao lado a cobiçar outras mulheres. Fui-me queixar ao Andrés que me disse para não ligar, porque era normal, ele já tinha visto o mesmo acontecer várias vezes, e quando as férias acabavam, ficava tudo bem.

Mas eu já estava com vontade de rebentar com o casamento, na última noite meti-me com o Andrès e enrolámo-nos.

- A sério? E onde estava o António?

- No bar do hotel a pagar mojitos às suecas. Nem deu por nada. Quando voltámos para Lisboa, separámo-nos seis meses depois. Já estávamos os dois fartos.

- Ele nunca desconfiou?

-Não. Além disso ele arranjou uma namorada assim que nos separámos e eu voltei a Tulun um ano depois. Mas o Andrès já lá não estava, tinha vendido o hotel e segundo os novos donos, comprara outro no Belize.

Foi horrível. Passei uma semana sozinha na praia a ler e a escrever no caderninho, a imaginar que me cresciam umas orelhas de burro na cabeça. Nem sequer o avisei, apareci armada em esperta e lixei-me.

- E nunca te arrependes de te teres separado?

- Às vezes sim. No inverno é sempre pior. Separei-me porque achei que podia arranjar melhor e desde então só me saem palhaços. Mas agora já está.

Pensas sempre que podes encontrar melhor e quando bates de frente com a realidade, já é tarde para voltar atrás. Tive azar. É a vida.

E continuou a comer a salada caprese enquanto eu terminava o meu penne al pomodoro.

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