Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Nuvens de algodão

Se as crianças crescem, porque é que os adultos não conseguem?
10 de janeiro de 2020 às 13:12
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Nuvens de algodão
Foto: D.R.

Faz hoje cinco anos, eu guiava pela cidade quando te vi cruzar uma das principais avenidas da cidade com o semblante sério e um saco de viagem às costas. Ou talvez fosse do ginásio, só tu saberás, isto é, se ainda te lembras. 

Eu lembro-me bem porque foi o dia do atentado a um jornal francês que matou 11 jornalistas e um polícia. 11 pessoas ficaram feridas, uma ferida de terror e de descrença no bem nos sistemas democráticos alastrou-se por toda a Europa, qual fogo em dias de calor e de vento. Foi no Liceu Francês que aprendi como e porque é que a França foi o berço da democracia, domino a língua de Beaudelaire com mestria, nunca gostei de Descartes e sempre adorei Monet e sinto-me em Paris como peixe na água. Chorei nesse dia, não apenas por causa do atentado, mas também porque te vi na rua, despenteado e com o olhar ausente assim que fechei a janela do carro e continuaste o teu caminho a caminho da tua nova casa onde recomeçaste a tua antiga vida. 

Cinco anos depois, Lisboa já é outra cidade, tem passeios pedonais que seriam espetaculares se não estivéssemos constantemente na iminência de sermos atropelados por uma bicicleta ou por uma trotinete, as rendas triplicaram e é uma alegria quando entramos num restaurante e vemos nas mesas alguns conterrâneos. É à noite que a cidade em certos bairros fica mais triste, porque nos prédios afinal não vive ninguém, são fruto da política dos Visa Gold que serviu para atrair estrangeiros, e nós a pagar cada vez mais impostos. Nem sei porque te falo disto, não sei nada de economia nem de finanças. Cada vez que tentavas explicar-me uma operação de engenharia financeira, eu concentrava-me a todo o custo para seguir o teu raciocínio, mas a minha cabeça de poeta nas horas vagas não chegava para tanto. Prefiro mergulhar no coração dos nossos conterrâneos, sejam eles nados e criados no nosso jardim à beira-mar plantado ou em terras tropicais onde deixámos a nossa língua para sempre, e usar os seus versos para ensinar os meninos da minha sala a sonhar desde pequeninos. 

Há muitos anos que tenho a Sala dos Golfinhos, é a sala dos três anos, a diretora do infantário já me fez várias vezes a proposta de mudar para uma sala de mais velhos, mas eu gosto mesmo é daquela idade em que eles ainda acreditam que as árvores falam, que os pássaros choram, que as tartarugas dançam e que as nuvens são mesmo de algodão. 

Tinha três anos a tua filha Leonor, espevitada e risonha, faladora e fiteira, fingia que estava a dormir quando a tiravas do carro e a apegavas ao colo para não ficar comigo, mas assim que viravas as costas, punha-se a rir como se tivesse engolido uma moeda de ouro e raramente chorava. Era a líder da sala, gostava de mandar nos outros miúdos, imitava todos os meus movimentos e o que eu dizia. Talvez quisesse já ser educadora de infância, há vocações que despontam tão cedo quanto a razão, ou antes ainda. Quase nunca vinhas buscá-la, os compromissos no banco obrigavam-te a sair tarde, por isso era sempre de manhã que te lançava o meu sorriso mais inspirado, que era sempre, correspondido. Um dia disseste-me, num almoço de Verão com vista para o mar:

"Quem me dera ter-te conhecido antes, tinha-me casado contigo"

Já não nos víamos desde o último dia de escola, a Leonor estava a passar férias com a mãe e os irmãos e naquele dia de Agosto não estavas despenteado, só um bocadinho nervoso. Demos um abraço imenso, no ano seguinte a Leonor mudou de infantário porque tu mudaste de casa e só voltei a ver-te seis meses depois, naquela manhã fria de Janeiro com o saco à costas e o olhar de quem carregava o peso do mundo. Eu abri a janela do carro e tu sorriste e disseste:

"
estás linda, estás sempre"

e continuaste a sorrir, mas depois continuaste a andar, absorto nas tuas obrigações e levado pela tua vida, atravessaste a rua e despareceste ao virar da esquina. 

Cinco anos depois mudei de casa, mas não de emprego, o sol nasce do mesmo lado do céu, chove cada vez menos e às vezes ainda tenho saudades tuas. Podia ter namorado outros rapazes, até tentei, mas nunca correu bem. Depois fiz como tu, desliguei o coração e meti-o numa caixa, parece impossível mais não é, basta fingir que não o ouvimos a bater, não lhe dar conversa nem confiança, e sempre que ele se agitar, dizer-lhe para ficar sossegado, como faço com os meninos na hora da sesta. 

Uma pessoa habitua-se a tudo, é só uma questão de prática e de persistência, mas outro dia vi a Leonor na rua de mão dada com a mãe e vieram-me as lágrimas aos olhos. Está muito alta, uma espiga de gente, com o mesmo sorriso malandro e o cabelo igual ao teu, despenteado e indomável como se tivesse metido os dedos na ficha elétrica, e dei comigo e pensar se também tens saudades minhas. 

Se as crianças crescem, porque é que os adultos não conseguem? Só Deus sabe, porque nenhum filósofo ou poeta, seja Descartes ou Beaudelaire, consegue resolver o maior mistério da vida que é o amor. Nas minhas horas vagas de poeta, deixo o meu coração nas palavras, mais isso não me ensina nada, só ajuda a limpar as saudades que me restam, apesar de tudo.

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