Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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O senhor talvez

Já não és o meu herói. Já não me prendes o coração nem me roubas o sono nas vésperas das tuas chegadas. Talvez ainda te ame, mas é quando já não esperamos nada das pessoas que elas morrem no nosso coração. Chegámos ao fim da nossa viagem. Só nos resta voltar para trás e dar outra vez a volta à vida.
23 de novembro de 2018 às 08:00
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O senhor talvez
Foto: D.R.

Agora que os dias caem mais depressa, aproveito os minutos para namorar o céu que se vai matizando em tons de rosa e de malva, enquanto tento ouvir na conversa dos passarinhos do meu jardim o anúncio da tua chegada. Talvez a palavra mais correta seja passagem, porque nunca ficas, embora cada abraço teu antes da partida me deixe sempre com a quase-certeza de que mais tarde regressarás, cansado, mas feliz por te sentares à lareira e por fim dormires na nossa cama, mais quente do que todas as brasas que ardem detrás do vidro do recuperador, até o sol nascer de novo. Tudo se passa nesse lugar mágico com uma vista que lava os olhos e apazigua a alma, aquele lugar a que chamamos casa.

Infelizmente ambos sabemos que nada disso é verdade. A minha casa podia ser no teu coração, e a tua no meu, mas o meu está vazio porque não queres lá viver e o teu já está cheio com outra vida. Quatro filhos, cada um com direito ao seu espaço: a Luísa, a melhor da turma, com jeito para cantar e para desenhar, Tobias, campeão de xadrez e surfista destemido, Pedrinho, de nariz arrebitado e promissor jogador de râguebi e por fim Joana, o teu clone mais clone, em tudo igual a ti, desde o sentido de humor disruptivo à paixão por gelado com sabor a caramelo salgado. Se não fosse a Joana, talvez eu tivesse tido uma hipótese, mas essa rainha mais pequenina é quem manda no teu coração e na vida de toda a família. É muitas vezes assim, os mais novos são os mais fortes, os mais influentes, os que conquistam o trono, a coroa e o poder.

Fui vendo a Joana a crescer ao longo dos anos, sempre muito parecida contigo, desde o riso no olhar até à cova no queixo, e o que mais me custa é saber tanto desse quarteto de sonho sem nunca os ter conhecido. Sei quem apanhou sarampo com 2 anos, quem tem medo do escuro, quem não gosta que lhe troquem as rotinas, quem desenha vestidos e chapéus, quem se destaca nas redações, quem gosta de correr pela casa e de brincar às escondidas enquanto se veste, quem se pela por um prato de cadelinhas e quem é alérgico a morangos. E sei de quase tudo o que gostas e de que não gostas. Não gostas de álcool, não gostas de pessoas burras, embirras com o teu chefe, não levas a sério tipos que não trabalham, gostas de loiras e de mulheres inteligentes, de pargo no gelo e de bifes com molho de pimenta, gostas dos meus beijos, das minhas gargalhadas, das minhas pernas e das minhas mensagens divertidas, não pões açúcar no café e nunca estás cansado, ou se estás, mordes a boca e finges que não não é nada, até teres acabado o teu dia de trabalho e cumprido todas as obrigações

Um dia disseste-me que te conhecia como uma radiografia, por isso às vezes pergunto-me se me conheces tão bem como eu a ti, se adivinhas as minhas noites de silêncio e placidez em frente à lareira a reler os clássicos russos e a planear viagens com as minhas amigas solteiras. Pergunto-me se me conheces assim tão bem, quando te cruzaste com os meus filhos tão poucas vezes, se nunca quiseste fazer parte da minha vida, celebrar os meus sucessos, ou apoiar-me nas minha derrotas. Desigual é o nome que dou a tudo isto. Desigual no tempo e no modo, na dedicação e na profundidade. Igual em paixão e em intensidade talvez, igual em admiração e sonho, mas desigual na vida, que é afinal a única coisa que conta.

O que te posso dizer Senhor Talvez, é que o tempo e o cansaço matam tudo. Já não és o meu herói. Já não me prendes o coração nem me roubas o sono nas vésperas das tuas chegadas. Talvez ainda te ame, mas é quando já não esperamos nada das pessoas que elas morrem no nosso coração, Chegámos ao fim da viagem. Agora só nos resta voltar para trás e dar outra vez a volta à vida.

Quando tudo isto acabar, serei enfim livre e nunca mais deixarei que usem comigo a palavra Talvez. E voltarei a comer gelado de caramelo salgado sem me lembrar que fui que te viciei nesses e noutros sabores que o tempo irá apagar para sempre.

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