Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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O tempo é o maior ladrão

Aquilo que é mais profundo e sério não se cura com o tempo, mas com a vontade férrea de mudar.
13 de dezembro de 2019 às 19:52
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O tempo é o maior ladrão
Foto: D.R.

Se o tempo curasse tudo, a farmácia vendia relógios. E já agora também podia vender comprimidos para a inteligência, para a educação e para o caráter. A questão é que a cura dos grandes males reside muito mais na nossa capacidade de autorregeneração do que em mezinhas alheias ou limpezas energéticas. O tempo não cura nada, o que cura é a vida e a mudança da realidade. O que fazia sentido ontem deixou de fazer, o que foi verdade deixou de ser, o lugar onde o passado nos deixou não irá conduzir-nos a um novo lugar no futuro. E enquanto não sabemos que direção tomar, nada como viver do presente e descansar um bocadinho, até que novos ventos ou novas luas nos guiem para a próxima viagem. 

Estas reflexões podiam sair em qualquer página de um dos meus romances, sempre protagonizados por mulheres fortes que lutam entre a razão e o coração, o passado e o presente, o presente e o futuro, o desejo e o juízo, o sonho e a realidade. As minhas heroínas – Madalena do Sei Lá, a Vera do Não Há Coincidências, a Alice de Mariana, meu Amor ou a Mafalda de A Desordem Natural das Coisas têm em comum a mesma ambição: a partilha de uma vida a dois. E não há nada de errado nisso. No fundo, todos queremos atenção, validação, mimo, afeto e companhia. 

O ser humano é intrinsecamente social, nenhum homem é uma ilha, muito menos uma mulher. A questão é que o processo de individualização do qual já somos reféns nas sociedades ditas civilizadas, é um tiro no pé da nossa felicidade e do nosso bem-estar. O que sou é substituído pela projeção da imagem daquilo que quero que os outros pensem que sou e nas relações amorosas aquilo que dou é substituído por aquilo que quero. Não podia ser uma combinação das duas coisas? Sim, se ambos agissem em conformidade. Mas não é o que acontece a maior parte das vezes. 

Se o tempo curasse tudo, as árvores doentes não morriam e voltavam a florir. Mas o tempo não cura nada, a não ser o que é mais superficial, uma unha partida, uma farpa ligeira, as marcas de uma estalada na cara. Aquilo que é mais profundo e sério não se cura com o tempo, mas com a vontade férrea de mudar. O problema e que as circunstâncias são quase sempre mais fortes do que a motivação.

Sempre que o final de um ano se aproxima, é inevitável fazer balanços e contas à vida, definir novos objetivos, decidir finalmente tirar aquele curso de linguagem gestual ou fazer o tão sonhado workshop de arranjos florais. Tais decisões são muito mais fáceis de tomar do que pôr um ponto final a relações tóxicas, conflitos familiares ou amores que já foram um sonho e se transformaram num pesadelo. 

Para os males da alma e do coração a farmácia de pouco serve, o que serve é ganhar juízo quando já se perdeu demasiado tempo, o tal que não cura nada, porque no fundo o tempo não passa, nós é que passamos por ele. O tempo serve para olharmos para trás e vermos os disparates que fizemos e pouco mais. Corre à nossa frente como o coelho da Alice e faz-nos perguntas parvas como o Chapeleiro Maluco. O tempo tem um cuco escondido no peito que salta a meio da noite para nos afrontar num pesadelo. O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão. O tempo só passa quando não damos por isso, o tempo é mesmo o maior ladrão.

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