Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Olhar com o Coração

Aquilo que eu pensava e não dizia tinha a ver com eu sentir que as pessoas sentiam.
08 de novembro de 2019 às 14:45
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Olhar com o Coração
Eu via-te e ao mesmo tempo não te via, talvez porque já não queria olhar para ti. Conheço demasiado bem a curva dos teus ombros, grossura dos teus dedos, aquela pequena cicatriz debaixo do olho direito que quase ninguém vê, mas conheço ainda melhor o sorriso tímido, o olhar ansioso ou ausente, a voz que parece sair sempre um bocadinho pelo nariz. Conheço-te tão bem que adivinho a que horas o sono te abandona, se estás num dia de cão, se vais viajar ou se acordaste a pensar em mim. Sei que isso por vezes te fascina e outras vezes te irrita, mas é mais forte do que eu, chamo a isto olhar com o coração.
Eu via-te e ao mesmo tempo não que queria ver a entrar na pastelaria imensa onde a minha avó Henriqueta gostava de levar os netos a lanchar ao fim-de-semana. Éramos cinco crianças, todos em escadinha, entre os nove e os quatro anos. Primeiro a minha irmã Rosarinho, magra, pálida e bonita, depois o meu irmão Gonçalo, de sorriso largado e sempre bem-disposto e pronto para fazer partidas, depois o primo Nuno com uns olhos enormes, tão sossegado que às vezes parecia desligado e finalmente a Paulinha, a mais pequenina, com cara de boneca de porcelana e voz de boneco animado. Entre os dois primos estava eu, já míope, de totós e aparelho nos dentes, com cara de passarinho e a resposta sempre na ponta da língua.
A avó levava-nos às compras numa loja catita que se chamava O Pequeno Lord, saíamos de lá todos a fazer pendant, os rapazes de calções de xadrez e as meninas com kilts com o mesmo padrão, nós de camisola de gola alta de terylene azul e eles encarnada, as meninas com sapatos de fivela e eles de botas de atacadores. Com os anos, irmãos e primos mais novos herdavam a roupa dos mais velhos, não se vivia mal, mas as pessoas tinham brio em poupar, esbanjar era coisa de gente maluca e sem tino.
A avó gostava de poupar em tudo menos nos bolos. Mandava vir seis duchesses, um para cada neto e o último para ela, e acabava por comer todos os que sobravam. Pedia um chá e leite com chocolate da Ucal para a miudagem. Eu fazia parte dos netos que nunca comiam o duchesse. Bolos nunca foi o meu forte e além disso estava sempre demasiado distraída a observar as amigas es conhecidas da minha avó que desfilavam pela Mexicana.
 
Aquela senhora parece uma perna de uma mesa de estilo.
 
Aquela ali tem cara de pão de ló de Alfeizarão
 
O marido da Dona Ema tem duas bolas de ténis nas bochechas
E por aí fora. Dizia tudo sem pensar, embora não dissesse tudo o que penso, e agora reparo que, mais de 40 anos depois, estou igual, digo muita coisa sem pensar, e, no entanto, se dissesse tudo o que penso já teria provocado um terramoto u um tsunami. Aquilo que eu pensava e não dizia tinha a ver com eu sentir que as pessoas sentiam. Era como se o todos os meus sentidos me dessem sinais que desenhavam o estado de espirito daquelas almas que mal conhecia e que nunca mais vi desde que a avó Henriqueta morreu.
Estive vários anos sem entrar na Mexicana e cada vez que entrava noutra pastelaria qualquer e via dicheses nas montras retro-iluminadas, dava-me vontade de chorar. Lembrava-me dos seus olhos muitos azuis que o meu filho herdou, do seu sorriso largado que o meu irmão também tem, da sua pele alva como a da minha irmã e tinha saudades dela, porque acredito que foi ela a primeira a perceber a minha capacidade de ver mais fundo nos outros o que quse ninguém conseguia vislumbrar
 
Esta criança lê os outros com o coração, dizia muitas vezes à minha mãe. Mais de 40 anos depois, a minha mãe dá-me razão.

Por isso, quando te vi a entrar na Mexicana com os ombros curvados e o olhar perdido, virei a cara e não te quis ver. Continuas um homem bonito, embora quase sempre com a barba mal aparada e os sapatos e precisarem de ser engraxados. Mas já não és a mesma pessoa que cruzava a cidade entre duas reuniões para descansar a cabeça no meu colo e que todos os dias me dias me mandava mensagens a dizer, saudades tuas paixão, quero dormir ao teu lado, quero a tua cabeça a descansar no meu peito.

O meu coração já não consegue ler o teu olhar, as tuas mãos, nem mesmo o teu coração. Talvez esteja fechado num relógio de cuco e só se mostre a certas horas, para depois se recolher numa caixa de madeira onde o sol não entra, nem entra o frio que agora chega com o Inverno.

Talvez o Inverno seja isto, eu aqui a escrever sobre o a minha avó e tu a viver numa caixa, estação após estação, até que o tempo apague as saudades, o teu sorriso tímido e as tuas mãos ansiosas do meu coração de menina de kilt e de resposta na ponta da língua.

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