Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Piloto automático

Quem diz que não sonha, ou mente, ou não sabe o que diz.
03 de janeiro de 2020 às 23:57
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Piloto automático

Parece fácil, mas não é. Acordar todos os dias e sair da cama. O corpo, moído das noites mal dormidas, pede descanso e proteção sob o peso leve das penas de edredão. A pele está morna, mais quente no peito, mais fria nos pés e nas mãos. A almofada tem marcas de sono e a cara tem marcas da almofada, tal como os sonhos têm fantasmas da realidade e a realidade vive minada de sonhos, ou de fantasmas, tanto faz. 

Quem diz que não sonha, ou mente, ou não sabe o que diz. Sonha quem dorme, ainda que não se lembre, sonha quem guia pela estrada, quem escolhe o lugar à janela no comboio, quem se mantém sentado no sofá da sala depois das luzes apagadas quando o resto da família já se recolheu. Sonha quem compra o Euromilhões, quem consulta cartomantes, quem lê todos os dias o seu signo e o signo de quem ama. Sonhamos todos um bocadinho, mesmo quando não queremos, porque precisamos de viver além de sobreviver, porque o sonho comanda a vida, porque queremos que a bola colorida salte e o mundo avance. Mesmo que as pessoas vivam em modo de piloto automático, sonham sempre um ou dois minutos por dia, porque os sonhos são o ar da vida e sem ar morremos todos.

Parece fácil, mas não é. Acordar todos os dias e sair da cama. Na noite passada sonhei contigo. Sonho muitas vezes contigo, sempre em casa, na tua, na minha, na de outras pessoas, não sei porquê, mas estamos sempre entre várias paredes. Em alguns desses sonhos falamos um com o outro como se fossemos vagos conhecidos, ou então finges não me ver. Mas não foi assim no último sonho. Estávamos num terraço sobre Lisboa, decorado com charme e bom gosto, sofás, almofadas, plantas exóticas, candeeiros de exterior, como se fosse uma produção para um filme. Uma mulher que nunca conheci, perguntava o que se passava entre nós. Eu ficava calada. Não tinha nada para lha dizer. O nosso amor já deu tantas voltas que não faço ideia o que se passa entre nós, e além disso não conto a minha vida a estranhos, muito menos tu. O meu silêncio deixou-a furiosa, o teu ainda mais. Lembro-me de cruzarmos o olhar, sinal que a deixou ainda mais zangada. Alegando uma dor de cabeça, anunciou que ia deitar-se, subiu para o parapeito do terraço e atirou-se.

Fui a correr ver o que não queria acreditar ser verdade. E não era. Do lado de fora do parapeito existia uma manga das obras, daquelas para vazar entulho, que parecem um túnel esvoaçante. 

- Os quartos são lá em baixo - disseste com cara de robot, em modo piloto automático

Naquela casa que devia ser maravilhosa só a avaliar pelo terraço, os quartos eram num fundo qualquer, uma cave, sei lá, um lugar escuro que se alcançava todas as noites por uma manga numa descida vertiginosa e sinistra. 

Os sonhos são isto, pregam-nos partidas com cenários absurdos, vemos sofrer ou morrer aqueles que mais amamos, o mar pode abrir-se como quem parte uma melancia num só golpe, o céu pode ter várias luas, os nossos pais são nossos filhos e vice-versa. Nos sonhos tudo é possível e quase nada faz sentido. Mas naquele terraço eu era mesmo eu e tu eras mesmo tu, tal e qual como somos agora, eu sempre um bocadinho expectante e tu sempre um bocadinho desligado. A mulher que se atirou da manga para uma mais uma noite de sono tinha cara e personalidade e no entanto, tenho a certeza que não existe. Talvez seja a personagem de uma série americana, daquelas a que assistimos no Netflix a vários episódios seguidos. Tinha ar disso. O terraço podia ser em Nova Iorque, mas com o castelo de São Jorge à vista, era pouco provável. Seja como for, não voltei a sonhar contigo. O novo ano não te trouxe na minha bagagem emocional. Quem sabe ficaste retido na alfândega, ou foste parar aos Perdidos e Achados de um aeroporto qualquer. A tua cara naquele derradeiro sonho era de quem há muito já ligou o piloto automático. Só posso desejar-te bons voos nesta década que agora começa e rezar para que um Deus maior te dê a paz e o sossego que tanto desejas. 

Quanto a mim, a cada dia que passa deste novo ano, vai sendo cada vez mais fácil acordar e sair da cama. Tudo o que fomos ficou arrumado na caixa do pretérito passado, que é onde devem ficar as melhores memórias.

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