Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

Notícia

Pontes levadiças

Gosto de acreditar que os bons vencem sempre e que a paz é a maior vitória da condição humana.
28 de fevereiro de 2020 às 14:35
...
Pontes levadiças

Vamos imaginar o mundo arrumado, desenhado a régua e esquadro. Vamos acreditar que a ordem se sobrepõe ao caos e que a razão ganha ao coração. A vida pode ser um filme épico, uma comédia romântica, uma série de espionagem, uma saga familiar ou até uma animação da Pixar com bonecos que pensam que voam, cowboys com bom coração e monstros que se assustam com crianças. Se a vida for vista com um filme tudo será mais linear, e por isso mesmo, mais fácil: o herói que parte em viagem e regressa mais forte. A sombra que é aniquilada. O bem que vence o mal. Os aliados que nos acompanham e se despedem no fim da jornada, e o nosso amor que nos espera no regresso a casa, seja lá onde for, seja lá o que isso for.

Vamos imaginar o teu mundo e o meu, os dois arrumados. Cada um lutou durante muitos anos para erguer a sua cidade fortificada, na qual é agora rei e senhor. Cada cidade tem o seu muro que a protege dos inimigos reais e imaginários, tão alto, tão grosso, tão frio. Como todas as cidades fortificadas, existem frechas para lançar flechas em caso de invasão e torres de vigia, onde os meus e os teus soldados, cansados, fazem o seu trabalho o melhor que podem. Ninguém sabe a que distância se encontram, porque nenhum mapa consegue apontá-las, nenhum satélite as alcança do céu. As nossas cidades existem dentro das nossas cabeças, às vezes dentro do coração, outra vezes por fora, para o proteger. 

A tua cidade e a minha comunicam por mensageiros modernos, mas ambos temos saudades de ver falcões a sobrevoar as muralhas, trazendo bilhetes escritos em papel verdadeiro, a tinta atrevida, assinados com um beijo espelhado sem pudor e o perfume impregnado entre as linhas. Já nada disso quase existe, mas como em quase tudo na vida ainda temos um quase, a possibilidade remota de um envelope com um selo que espera paciente numa caixa de correio até que alguém a abra e respire todas as palavras de uma missiva, e sobretudo as que não foram escritas e que estão lá, debaixo das outras.  A essas missivas cada vez mais virtuais gosto de chamar pontes levadiças, tréguas de paz sem sossego, quando eu baixo a minha ponte, tu baixas a tua, e nos encontramos a meio caminho num caminho que não existe. Em certas manhãs mais inquietas, acordo com o ranger das correntes que anunciam a minha ou a tua ponte a descer, devagar, tudo muito devagar, que é como devem ser feitas as melhores coisas da vida; as casas, os filhos, o amor, os bolos de cenoura em forno brando, o chocolate derretido em banho-maria, os abraços e os beijos, tudo tão devagar que o tempo pára, ou quase, e vemos a cena de fora em câmara lenta, do alto do mais nobre camarote.

Vamos até a meio do teu e do meu caminho, negociamos a paz com a moeda do juízo e pagamos o sossego com o silêncio. Às vezes um de nós quebra o tratado assinado e o outro diz, então vá lá, já tínhamos tudo arrumado. Tanto faz quem o faz, tanto faz quem o diz. E depois cada um volta cada um para a sua cidade e as pontes recolhem.

A minha tem a estátua do Príncipe Feliz do Oscar Wilde na praça central, tem a andorinha que é a sua assistente, tem a rapariguinha dos fósforos, sempre dividida entre vender a sua parca mercadoria para ter pão, ou aquecer-se com ela, e tem ainda uma Rapunzel perdida no tempo, que vive numa torre a escrever poesia. Tem gaivotas que fazem ninhos nas chaminés e vasos com flores à porta das casas. A minha cidade fortificada festeja a sagração da Primavera e a chegada dos primeiros nevões, as crianças constroem bonecos de neve com cenouras, ramos de árvores e chapéus velhos.

Fecho os olhos e imagino que um dia, quando as pontes levadiças estiverem sempre em baixo e o medo for vencido pela vontade, as crianças das duas cidades possam andar na mesma escola, nadar no mesmo rio e brincar juntas. E é com esse pensamento que me vou esquecendo de levantar a minha ponte, porque gosto de acreditar que os bons vencem sempre e que a paz é a maior vitória da condição humana.

Mais notícias de Pessoas Como Nós

Mergulhar no futuro

Mergulhar no futuro

Agora, enquanto a ameaça da pandemia pairar sobre Portugal e o mundo, espero pacientemente por aquele momento mágico em que vou poder voltar a mergulhar no mar. A vida ensinou-me a mergulhar no futuro, mesmo quando o futuro é um lugar vago e incerto.
Com cinco letras apenas

Com cinco letras apenas

É engraçado como as palavras mais belas e mais importantes têm três, quatro ou cinco letras. Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, filho, paz, saúde, sonho, amor, fado. Beijo, abraço, toque, sim, não, já, agora, calma, vem, fica.
Claras em Castelo

Claras em Castelo

Estar fechada em casa não me custa, o que me custa é não ver o meu filho e os meus pais, as minhas sobrinhas e os meus irmãos, as minha amigas e amigos. Na verdade, o que me custa ainda mais, é não acreditar que, quando a pandemia passar, as pessoas não vão mudar. Agora acreditam que sim, estão paralisadas pelo medo, mas são apenas boas intenções, porque as pessoas não mudam.
Vou ali e já venho

Vou ali e já venho

Tenho 44 anos e herdei um andar no Dafundo, perto da estação. Era a casa dos meus avós, como sou filha única e neta única do lado da minha mãe, ela ofereceu-mo quando me licenciei. Agora estou fechada em casa como o resto do mundo e dou aulas aos meus alunos pelo computador.

Comentários

Comentários
este é o seu espaço para poder comentar as nossas notícias!
;