Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Quem sabe, ainda

O amor que se aprende em casa sabe a bolo de bolacha, sabe a papa Cérelac, sabe a sombrinhas da Regina, sabe aos abraços do meu pai.
12 de abril de 2019 às 22:52
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Quem sabe, ainda

Não vem em nenhum manual da escola quanto espaço deve ser dado ao amor. É uma lição que se aprende em casa, com os pais, os irmãos, com quem cuida de nós. Aprende-se a ver quem nos prepara a carcaça com manteiga e queijo e o leite com Ovomaltine, quem nos enche os termos de comida, quem nos forra os bolsos do bibe a areias e outros mimos. O amor aprende-se a ver, quando somos ainda tão pequenos que cabemos num cesto, e a ouvir, quando todos pensam que com seis meses ou um ano não ligamos ao que nos rodeia porque ainda não desenvolvemos a capacidade de responder. Mas já reagimos, o mundo é que quase nunca percebe o que estamos a fazer. Percebem as mães, as irmãs mais velhas, ou alguém que sempre cuidou de nós.

Na minha casa, além dos meus pais e manos, existia a Antónia, menos de um metro e meio de gente com o maior coração do mundo. Magra, seca, rija, corajosa, faladora, observadora, analfabeta de dicionário e sábia de vida, com uma intuição de fazer inveja a muitos doutorados, era assim a nossa Antónia, devota à menina Lena que conheceu adolescente e que acompanhou quando a manina se casou, e depois devota aos meninos da menina Lena.

Nos braços da Antónia nunca deixámos de ser meninos, nem quando casámos, nem quando nasceram mais meninos. A Antónia embalou e mudou fraldas a filhos e netos que não eram dela, mas que no fundo eram. Quando a morte a levou, aquilo doeu-nos a todos, uma parte de nós partira para sempre. Imaginar a nossa infância sem a Antónia é como assistir a um filme onde, por obra de técnicas de ilusão, apagam um personagem de todas as cenas que, sem ele, deixam de fazer sentido.

O amor aprende-se todos os dias, ou desaprende-se, nas famílias desavindas e desconjuntadas em que os membros perdem o norte e o barco navega à deriva, inseguro e instável. Nas famílias sem amor, as crianças crescem atrofiadas no medo, sentem-se pequenas s frágeis como uma folha de um caderno dobrada até fazer um barco, lançada no lago do jardim perto de casa. Em pouco tempo sabemos que a água irá ensopar o casco improvável, o sonho incipiente acabará inevitavelmente por se afundar no silêncio e na desolação, longe da margem onde foi largado e ainda mais longe do outro lado, onde poderia ser resgatado. O barco de papel desparece no meio e os lagos estão cheios de pequenos sonhos naufragados.

O amor que se aprende em casa sabe a bolo de bolacha, sabe a papa Cérelac, sabe a sombrinhas da Regina, sabe aos abraços do meu pai. O amor que aprendi também foi a jogar à bola, primeiro no corredor e depois na rua, graças à paciência à prova de bala do meu irmão que, à falta de mais um rapaz em casa, me puxava para o desporto-rei. Foi sol de pouca dura, porque eu queria ser bailarina e cantora como todas as maninas da minha idade. Contam na família que eu sonhava alto canções inteiras, de pé, em cima da cama, como se estivesse a fazer uma audição. Contam e deve ser verdade, mas não me lembro de nada, os sonhos que recordo são alados, vivíamos no sexto andar e eu imaginava a família toda a voar da janela, qual Peter Pan de Benfica, tudo muito suave, como uma folha de papel quando é largada ao vento. terminando em aterragens de anúncio.

Andar pelos ares nunca me meteu medo, até diz quem me conhece bem que é esse o meu maior problema: estou sempre em Júpiter, na Lua, em Vênus ou a rasar o sol, armada em Ícaro dos tempos modernos, inconsciente dos perigos que corro. Deve ser por isso que às vezes sinto uma comichão nas costas, logo abaixo das omoplatas, que me faz pensar que podem crescer em mim umas asas leves e coloridas, como as de uma borboleta.

O amor aprende-se em casa e eu tive os melhores professores do mundo. Pais, irmãos, tios, avós e a Antónia com os seus maravilhosos bolinhos de areia e batidos de Ovomaltine. Foi esse amor, armazenado numa imensa bateria que me guiou pela vida como filha, irmã, tia, mãe e mulher. Se um dia as asas crescerem mesmo, tenho a certeza de que serão alegres, fortes, leves e coloridas, como foi o dia em que te conheci e te escolhi para seres a minha casa.

Quem sabe, ainda vamos a tempo. Quem sabe, ainda temos sorte.






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